Gasto um tempo admirando as espalhafatosas torres de Gaudi e sigo timidamente para o Parque Güell para acabar de vez com as dúvidas sobre a estética do catalão. Depois de descer do metrô e enfrentar os numerosos degraus das escadarias daquele mundo fantástico, descubro meus bolsos leves, sem carteira e sem passaporte. Enfrento filas na delegacia de polícia. Eram muitos os caretas que, como eu, não se lembraram de colocar os chifres por cima da manada em Barcelona.

Pensando nas perdas da minha vida, sento em um café localizado nas ramblas e peço ao garçom: “orchata de chufa, si us plau”. Passados meses desde que ela se foi, em terras estrangeiras começo a me sentir corajosa para lidar com o que vier. Olho em volta e penso que, como a Catalunha, tenho lutado pela minha nova independência, embora às vezes ainda me ache perdida.

Mas respeito minhas lágrimas. Deu! Quero que pinte um amor Bethânia que me arranque agora dessa timidez e me faça percorrer o mundo. Demorei a admitir que posso ser careta, cubista, punk, espalhafatosamente Gaudi. De perto ninguém é mesmo normal. Êêêêê…

E entre risadas e lágrimas fico com os dois, não há escolha. Uma perda assim leva metade da alma, que depois regenera bem devagar, com direito a pirações e descontroles. Era minha metade, um preenchimento completo. Perdê-la foi como ficar só num universo novo. Sinto um misto de saudade e desejo que o tempo acelere e o passado chegue logo. Agora começo a me ver e me sentir novamente, já me permito prazeres, até esta viagem. A gente está mesmo sempre perdendo algo.

Que seja então minha sanidade que se perca, sem mais perda de tempo. Respeito muito minhas lágrimas, mas sou mais minha risada. Quero uma vida improvisada, como as notas do piano de Thelonious Monk. Quero paradas em New York, em Paris e noutras bandas. Sentir por vezes ser sagrada, outras tantas ser profana. Não, não estou mais perdida. Aqui está minha nova independência. Quero o mundo todo pra mim.

Mas antes, apalpo meu passaporte, agora bem guardado no bolso do casaco. “Garçom, outra orchata de chufa, si us plau”.

© Crônica coletiva


Este texto foi inspirado na canção “Vaca Profana”, escrita por Caetano Veloso em 1986. Ela faz parte de um conjunto de crônicas escritas coletivamente a partir de canções de Cazuza e de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses. Outra delas está aqui.