Minha última namorada tinha dois filhos. Passei com louvor pelos primeiros encontros e já estávamos juntos tempo suficiente para eu conhecer a família. Para minha surpresa gostei deles a ponto de me sentar à mesa nós quatro várias vezes numa mesma semana.

O garoto gostava de super-heróis, e eu cresci lendo gibi, então nosso assunto era sempre esse, mesmo que a Teresa e a filha não parecessem ter muita paciência com as nossas conversas.

– E aí, já viu o trailer do “Liga da Justiça”? Você sabia que o Flash era gay? – eu disse a certa altura durante o jantar, recebendo um olhar meio enviesado da Teresa.

– O ator que faz é gay, mas o Flash não é – me explicou Felipe com jeito de quem está falando com uma criança que acabou de dizer uma puta bobagem.

Júlia, a filha mais velha, interrompeu:

– Meu filme de super-herói preferido é aquele que tem um garoto que fica invisível quando ninguém tá olhando.

Era a coisa mais engraçada que tinha escutado em todo o dia. Aquela menina tinha senso de humor! Na hora me lembrei que filme era, com heróis esquisitões. Ninguém levava os caras a sério.

– Eu tenho esse superpoder – completou ela, e em seguida baixou a cabeça em silêncio, parecendo derrotada.

Foi a senha para eu saber que estava enroscado. Ninguém mandou eu dar uma de paizão no playground do vizinho. Olhei para a minha botina e me convenci de que no próximo cachê do jornal tinha que comprar um sapato novo ou mandar este para o Zé sapateiro. Aproveitei para arrumar os óculos, dar uma batida no jeans batido enquanto levantava e me despedia com desculpas clichês, tipo estou atrasado para qualquer coisa, esqueci a chave do lado de fora da porta, hoje é o dia do rodizio do meu carro, mesmo que fosse fora do horário do rodízio, e daí para mais. O importante era não esperar a garota ficar invisível.

Foi então que Teresa perguntou:

– Por que você não dorme aqui esta noite?

– Sim! – disse Felipe todo entusiasmado, enquanto Júlia permanecia imóvel.

Parece que a terra se abriu debaixo dos meus pés. Achei que minha labirintite tinha voltado, não encontrava mais os meus sapatos e o teto parecia que estava se aproximando da minha cabeça na velocidade de um espirro. Tentei respirar, mas meus pulmões tinham desaprendido como funcionava. Olhava para a porta, para a chave na minha mão e para os seis olhos que me encaravam esperando uma resposta.

Fechei os meus na esperança de me apoderar do superpoder da menina. Abri novamente e ninguém mais estava lá.

Ufa! Deu certo! Ou será que morri? Na verdade, não. Era a porta da casa de Tereza, que estava bem ali na minha cara. Sorri fingindo que estava chateado e me livrei dessa. Só faltava me chamarem de pai.

© Crônica escrita por Beto Marques