Nem sei há quanto tempo o telefone está tocando. Levanto da poltrona cambaleando e procuro apoio.

– Alô…

– Oi, vó, o que tá acontecendo? – Ouço uma voz de criança do outro lado.

A pergunta me pega de surpresa. O que estaria acontecendo? E onde? Sobre o que aquela menininha estaria falando, se eu não tenho nenhuma neta? Dou trela à conversa.

– Olá, minha pequena, acordada até agora?

– Estou preocupada com você. Não consigo dormir. Já contei todos os carneirinhos, como me ensinou.

– Que linda, quanto carinho!

– Sabe, vó, aqui em casa falam tudo pela metade…

– Eu sei como é.

– Eu não entendi direito, então não consigo dormir.

– Você sabe que é importante dormir na hora certa. Amanhã cedo tem escola. Fez as lições?

– Fiz, vó, mas eu quero saber como você está. Mamãe estava chorando e toda hora repetia seu nome. Papai andava de um lado pra outro e ficava chamando o Tio Sérgio sem parar. Nem pude assistir meu seriado favorito no celular dele. Vozinha…

– Diga, amada!

– Eu amo muito você… tô com saudade. A minha amiga, a Aninha, me disse assim: “Julia, você nunca mais vai ver sua vozinha e nem comer os bolinhos que ela faz”. Fiquei com muita raiva e puxei o cabelo dela, vó… e aí…

– Dona Brancaaa, dona Brancaaa… Com quem a senhora está ao telefone?

– Olha só, minha menina, agora vou ter que desligar, está bem? Chegou a… Ah, deixa pra lá! Venha me visitar, tá?

– Ô dona Branca, já disse várias vezes pra senhora não atender o telefone na minha ausência! Quem era? Com quem a senhora tava falando?

– Ai, Luzia, não me amole! Tô cansada dessa sua chatice. Não posso fazer nada sozinha, oras!

– E veja só isso, novamente a senhora nem tomou o seu chá com bolachinhas, Dona Branca.

Na mesinha ao lado da poltrona encontro o chá está gelado ao lado do pratinho com o lanche da noite. E no chão, cacos de vidro espalhados bem ao lado da bengala.

–  …e olhe só que dó, o retrato da sua família se quebrou todo no chão. Mas o que aconteceu?

– Eu não sei de que família você está falando, Luzia. Pare de me azucrinar, hein! Eu estava aqui sentada tão somente, daí me levantei porque… ah, nem sei, e o bastão… o bastão… Ai, você me cansa… o corpo até chega a doer. Chega de perguntas! E vê se traz o meu chá, que sempre esquece.

© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Marise H. Louvison e Patrícia Marcela Gabborin