Inacreditável, foi a única palavra que consegui dizer quando ganhei um urso de pelúcia da minha irmã Juliana. Sei que muita gente ganha bichinhos bonitos, enfeitados, bem vestidos, até com cheiro. Fica feliz, coloca sobre a cama, na estante de livros. Mas eu tenho 64 anos, e com certeza vivi plenamente a infância.

Confesso que jamais pensei em retornar ao meu tempo de bonecas de pano, corda de pular ou minijogo de chá sobre a mesinha de fórmica. E olha que nem passei pelo desafinado piano com oito teclas. Trabalhei as possibilidades enquanto olhava para o urso. Doar para a primeira criança que encontrasse na rua, fazer uma rifa, ou mesmo jogar no lixo bem escondido para nenhum vizinho do andar ver. Mas gosto muito da Juliana, o que pesou na hora de decidir.

Pensando sobre nossa relação, tentei encaixar o presente inusitado. Sei que bichinhos de pelúcia carregam um componente de afeto muito forte, que podem transcender a experiência da infância, mas Juliana nunca foi uma irmã amorosa. Mais velha, sempre foi independente demais e muito focada em seus assuntos, raramente trocávamos confidências.

Na memória resgato o dia em que a vergonhei quando a diretora chamou porque eu tinha mordido o rosto de um garoto na sala de aula. E como era sempre ela quem me trazia do colégio, nesse dia foi só bronca na volta para casa. Pensando bem, tenho uma coleção de dias semelhantes que justificam nossa relação ter ficado estremecida. Mas era sempre ela quem estava por perto.

Ter consciência de tudo isso me deixou com raiva, porque não era um bom momento para analisar essa relação. O gostar, eu sei, ainda estava em seu devido lugar, irmã é irmã, mas admitir que sempre fomos muito diferentes em tantos sentidos, e que a distância foi cultivada por nós duas igualmente era mais difícil do que jogar sempre a culpa nela.

Então voltei a encarar o urso sentado em cima da mesa, já parecendo maior do que quando abrira o pacote entregue pelos Correios. Um grande incômodo que não ia desaparecer se eu ficasse apenas olhando para ele. Era preciso fazer a pergunta. E estar pronta para a resposta.

Com relutância peguei o telefone e liguei para Juliana.

– Tudo bem com você? Seu pacote chegou – disse logo que ela atendeu. Uma frase neutra, dita da forma mais neutra possível, na esperança de alguma explicação sem que eu tivesse que dar mais nenhum passo.

– Você gostou? – Ela perguntou com um ar meio sacana.

– É um lindo urso de pelúcia.

– Não é mesmo? Também achei.

Aquilo estava saindo do controle. Eu ia ter que perguntar, correndo o risco de parecer ingrata, ou fria, ou desinformada – podia ser um item muito popular e eu estar totalmente por fora.

– Tem certeza que era pra mim que você queria mandar?

– Sua filha esteve aqui. – Seu tão conhecido ar de censura fez parecer que eu tinha voltado no tempo. – Ela me disse que não se falam há meses. Isso não pode continuar assim, vocês precisam se entender.

– Nós nunca nos entendemos ­– eu retruquei. – Então não é agora que isso vai mudar. Eu fiz o que pude, mas parece que estou sempre errada. Até me lembra você e como ficava irritada com qualquer coisa que eu fazia.

Sem ligar para o ciúme que minha voz revelava ao saber do encontro entre as duas, e que aparecia toda vez que eu constatava a proximidade que mantinham, ela disse:

– Você vai ser avó. Precisa de brinquedos em casa para quando forem te visitar.

Juliana disse aquilo como se fosse uma ordem, como se eu não pudesse prover eu mesma alguma diversão para um neto que eu nem sabia que estava chegando. Pega de surpresa com a notícia, a raiva em um instante foi dando lugar a uma emoção nova, bem mais suave, embora inteiramente desconhecida.

E lá estava minha irmã, de novo por perto, quando eu ainda precisava dela.

© Crônica coletiva com a participação de Marise H. Louvison, Patrícia M. Gabborin e Denise Faria