Millôr Fernandes era um poliedro. Como assim? Poliedro sou eu. Vendi livros do Padre Charbonneau junto com a Enciclopédia Britânica, quando jovem. Cansei e vendi as primeiras cadernetas quando resolveram massificar a poupança no Brasil, aquelas da formiguinha. Estava nas ruas vendendo os primeiros seguros saúde que surgiram. Ia de hospital em hospital tentando convencer os diretores que o credenciamento era o ó do borogodó. Vesti farda, fui oficial do exército. Até programa infantil para rádio eu fiz. Representei o Brasil em reuniões da ONU. Ensinei muita gente a dizer franchising. Fiz consultorias para o Mercosul e iniciei o marketing esportivo. Já chorei ouvindo discurso da Erundina em um caminhão de som. Presidi estatais. Trabalhei com cálculos na Light, contava postes abalroados, cruzetas e metros de fios. Contava as lâmpadas também. Claro. Falo francês, espanhol e inglês. Também contei parafusos em uma fábrica de tratores. Fui comunista, anarquista e entrei para a turma dos reacionários. Já cantei Lula Lá e Fora Dilma. Comprei livros, bibliotecas inteiras. Ensinei e aprendi. Lancei livros, fui capa de revista e hoje eu sou do lar.

De tudo, tudo, ficou um mar denso de lembranças, sentimentos contraditórios (só os idiotas não se contradizem, com o tempo), frustrações não esquecidas, e sim, por favor, um gostinho de realização por ter trilhado novidades e velhidades com a mesma energia de um bandeirante urbano, aquela figura bem-intencionada que não vislumbra as consequências históricas de seus atos. Mas quem sabe antes?

Abri caminhos desconhecidos e atravessei matagais adversos e peçonhentos, sangrei, cicatrizei e venci. Hoje meu mundo é meu lar, minha riqueza interior, o conjunto das vivências introjetadas e batizadas com um intuito de sentido. Eu sou a soma improvável de todas as minhas faces. Quanta complexidade para atingir o simples. Mas só podia ser assim. Oh, multifacetada vida!

© Crônica coletiva com a participação de Marise H. Louvison e Luiz Geraldo Benetton