Tem gente que não gosta de viajar. Para mim, viagem tem a mesma importância que tomar banho, escovar os dentes e me formar na faculdade. Ou seja, me renova, me amplia, traz sentido à vida, acabo conhecendo mais daquilo que gosto e do que não gosto. E ainda abre espaço para eu mudar de opinião sobre esses mesmos gostos.

Um mal necessário é o avião. Tem fila para tudo, a comida é praticamente de plástico, o ar sempre é polar para competir com a temperatura externa e os banheiros após 20 minutos de voo ficam inutilizáveis. Admito que acho um pouco engraçado a dinâmica das pessoas para entrar e sair da aeronave. Empurram-se para entrar, colocam as cinco sacolas que compraram no Duty Free no compartimento de bagagem, e quando se sentam pegam imediatamente a revista para ver as novidades do mesmo Duty Free que deixaram minutos antes.

E a saída? Mais hilária que a entrada. Assim que o aparelho pousa, sons de cintos de segurança se soltando e a agonia no ar para sair daquela lata de sardinha o mais rápido possível. Logo em seguida vem a voz dos comissários de bordo pedindo para conterem a ansiedade de forma educada: “Senhoras e senhores, por favor, mantenham os cintos afivelados até que a aeronave pare completamente. Para a sua própria segurança”. Quando o avião para, as pessoas se acotovelam para chegar primeiro à porta.

Também era assim no colégio. Saíamos sempre correndo para fazer fila e ir ao recreio. De nada adiantava dar cotoveladas nos colegas, eu era sempre a última da fila, formada por ordem de altura. Detestava ser daquele tamanho. Girafa era o apelido mais carinhoso que eu tinha. E lembro da lancheira que minha mãe preparava cuidadosamente todas as manhãs: frutas, suco natural e um lanchinho. Hoje vejo que aprendi mais com minha mãe do que com os professores. Não sei nada sobre fórmulas de matemática, nunca decorei a tabela periódica nem regras gramaticais. Em contrapartida, não como alimentos industrializados, frituras ou refrigerantes. O que me faz achar ainda mais difícil encarar a comida de avião.

O fato é que em viagens aéreas nenhuma ciência funciona. Nem a matemática das chamadas por assentos na entrada. Nem a fórmula plástica do catering, que só provoca um flanar pelo meu estômago e me faz desejar a saudável lancheira da minha mãe. Por isso, toda vez que estou no avião, a minha memória afetiva me remete à infância, e a essa felicidade ingênua da época. Sim, tem gente que detesta viajar. Mas nessa hora eu procuro manter o meu ânimo e foco na viagem planejada. Chacoalho a cascavel num uísque on the rocks durante o voo e apago. E entrego para o lixo da memória a lista renovada daquilo que definitivamente não gosto.

© Crônica coletiva com a participação de Renata Mendes, Veruska Zanetti e Patrícia M. Gabborin