A dor do outro dói em mim.

Ouvir não é uma opção, pois uma vez que o ouvido funcione, ele ouve. É o barulho dos carros passando na Marginal, o avião às seis da manhã anunciando que o aeroporto de Congonhas está aberto, os pássaros piando em busca das frutas das árvores no parque perto daqui. Som, música, barulho, melodia…

Ouvir é entender que não se está sozinho. Mesmo quando o som chega em uma linguagem que não se entende. O que me impressiona é que acabo compreendendo o que antes achava não entender.

A essa compreensão que parece vir do coração damos o nome de empatia, uma relação com o outro em que não são necessárias palavras ditas ou experiências vividas, basta saber ouvir sobre sua dor.

Estar presente, sintonizado, atento já provoca um turbilhão de trocas emocionais, todas as células se envolvendo e agradecendo essa aproximação, essa partilha. A grande questão é: como ouvir e não se envolver? Como conseguir extrair algo dessa oportuna dor sem se sentir insensível?

Estar já é complicado. Ser e estar só é diferente em português e em algumas outras línguas. O outro sou eu ou está eu? Aparecem, assim, o ouvir e o escutar em um intricado carrossel de sentimentos. Olhar e ver andam juntos? Falar e dizer são irmãos?

Não há dúvida: a dor do outro foi em mim. E dói em mim porque não estou sozinho, mas conectado com tudo, e sou conectado com meus sentimentos. A dor do outro dói em mim porque em seu olhar vejo meus fantasmas. A dor do outro foi em mim porque quando quero dizer que tudo vai dar certo, no fundo gostaria de admitir que muitas dúvidas também me perseguem.

© Crônica coletiva com a participação de Renata Mendes, Denise Faria, Luiz Geraldo Benetton, Marise H. Louvison e Veruska Zanetti