Quando aqueles que admiramos e amamos se vão, levam junto um pouco do que somos, como foi quando perdi meu pai. O Tempo passa e assistimos a nossos ídolos e mentores, seres iluminados, partirem levando sua energia, um jeito de ser, um talento.

Aguardo com tranquilidade o microssegundo de sair do círculo da vida e já me imagino encontrando essas energias vibrando no espaço incógnito. Reconhecerei? Reconhecerão?

Vou pedir ao Tempo que me permita pelo menos um abraço, e que eu possa lhes dizer que segui os mestres para mais uma vez ser banhada pela luz da beleza e da sabedoria. E que ele seja justo e benévolo, não importando a duração, mas a intensidade da visão, do contato, da saudade. Como se nunca tivesse havido partida.

Tempo, tempo, tempo, nossos destinos em tuas mãos, dai-nos o instante mágico do reencontro, do colo macio, da palavra serena, do olhar acolhedor.

Ilumine nossas vidas para que teus fluidos incessantes sejam inspiradores. Que cada momento vivido, por ti sustentado, seja o bastante, pleno, sem lapsos e remorsos. Ensina-nos a manter a chama viva intacta.

Sendo o senhor da vida, Tempo, eu te peço, além da sabedoria, a visão do futuro no passado, para poder desfrutar como ídolo daquele que achava ser somente meu pai. Hoje sei que não é ele a controlar o destino.

Tempo, tempo, tempo, por conduzires meu destino, guia manso meu caminho. Que haja tempo nesse Tempo para durar o que precise.

© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Marise H. Louvison, Luiz Geraldo Benetton, Renata Mendes e Veruska Zanetti


Este texto é uma reflexão inspirada em música de Caetano Veloso, de 1979, em que o compositor faz uma homenagem ao orixá Iroko (ou Rôco), cultuado no candomblé do Brasil pela nação Ketu. Iroko é uma árvore que representa a longevidade, a durabilidade das coisas e o passar do tempo. Na mitologia, Iroko foi a primeira árvore plantada e pela qual todos os outros orixás desceram à Terra.

Oração ao Tempo faz parte de um conjunto de 12 crônicas escritas coletivamente, sendo seis a partir de canções de Cazuza e seis a partir de canções de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses. Uma delas está aqui, a outra aqui, e mais outra aqui.