Tudo em volta está deserto. Acima, abaixo, adentro e afora. Nada sobrou. Nossas liberdades, nossos ares marotos, sorrisos cúmplices, coreografias não ensaiadas, silêncios, um amor sem nome, sem divisas, sem medos.

Restou-me sublimar cantando nossa história, versando saudades, rimando lágrimas com lembranças, mas o vácuo anula o som. Então pra que cantar? Pra quem cantar? Quem vai me ouvir se dentro de mim só há vazio, o nada ao quadrado? Meu canto vai morrer comigo. Tudo vai mal. Tudo.

O que aconteceu conosco e apesar de nós? Achei que estávamos aparando as arestas dos nossos sentimentos, arredondando as contas.

Existia uma perfeita exatidão, encontrada nas mais elaboradas matemáticas calculadas a dois no Sujinho da Rua da Consolação, onde hoje passo os dias num canto mudo, assistindo minha alma chorar. No alto, a mesma Lua, que muitas vezes nos serenou, tem tantas questões quanto eu sobre nós.

Mas tudo certo. Afinal, é melhor ter algumas lágrimas para consolar dentro dessa dúvida do que não ter dúvida. Meu amor, a liberdade é sufocante porque não existe, já que vivemos nossas angústias aritméticas, geométricas e infinitesimais.

E se antes somávamos, hoje me sinto subtraído. Mas espero o tempo passar, porque, afinal, minha cara, poucas lágrimas bastam pra me consolar. E tudo vai ficar bem, acharei outro grande amor, e você permanecerá naquele conjunto vazio onde não há mais nada, nem mesmo a lembrança do que fomos.

© Crônica coletiva com a participação de Luiz Geraldo Benetton, Denise Faria, Renata Mendes, Marise H. Louvison e Veruska Zanetti


Este texto foi inspirado na canção “Como dois e dois”, escrita por Caetano Veloso em 1971 e gravada por Roberto Carlos. Originalmente uma metáfora da ditadura, em nossa crônica ganhou outra leitura. Ela faz parte de um conjunto de 12 crônicas escritas coletivamente, sendo seis a partir de canções de Cazuza e seis a partir de canções de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses. Uma delas está aqui.