Do alto de seu um metro e oitenta, Teca Lisboa falava alto e com gestos amplos sobre a maravilha de ter vivido os anos sessentas. O ambiente era propício para o tema. Praça Roosevelt. Espaço Parlapatões. Lá fora, o mundo já não era mais o mesmo. A praça, tampouco. A sala estava apinhada de gente por toda a parte. O autor, Zeca Bastos, que lançava seu primeiro livro, olhava agoniado para a porta toda vez que alguém ameaçava entrar. Quem sabe um seguidor? Quem sabe mais um exemplar vendido das duzentas folhas que falam sobre a comunidade dos excluídos no cinema brasileiro?

A voz de Teca sobrepunha-se a todos os ruídos. Música ambiente, falatórios, buzinas, vendedores da noite que chegavam, vendedores do dia que se retiravam. O tema mais explorado era o ensino no Colégio Dante Alighieri, seu passado e seu orgulho. Zeca Bastos franzia a testa a todo instante, deixando claro, em suas linhas tortas, que o assunto não o interessava. Ficava mais perplexo ao analisar a personagem. Teca, arquiteta, 55 anos, que um dia teve fama, que um dia foi bonita, e que um dia foi rica e desejada, ajeitava de quando em vez seus cabelos quase compridos e desalinhados que gritavam por uma tesoura de cortes exatos e mais condizentes com os atuais. Boca grande, de lábios carnudos, nariz grande com narinas bem abertas, olhos quase verdes que ela insistia serem azuis. Suas sobrancelhas eram grossas, porém delineadas. Das orelhas pendiam brincos divididos em duas partes: uma redonda de metal amarelo, e outra com um pingente retangular de metal branco. As mãos que seguravam o copo com gelo e Red Label exibiam, na direita, em dois dedos longos e grossos, anéis que produziam faíscas de tanto brilho. Um mini top azul sob a camisa branca de lese e uns jeans que gritavam de tão apertados compunham sua silhueta, que terminava em um sapato branco salto 7.

Zeca Bastos perguntou se ela queria outra bebida, e aproveitou para tomar um pouco de ar lá fora. A noite estava morna. Um mormaço carioca, deslocado, provocava um suor desconfortável.

De volta, e sem grande inspiração, como sempre, o grande autor cunhou mais uma frase sem brilho:

– Quer mais gelo?

Teca olhou seu copo, que mais parecia um iceberg, e sorriu de leve: – Não, obrigada.

– Lindo anel.

– Qual?

– Os dois – corrigiu. – Combinam com os brincos.

– Herdei da minha irmã, a Tuca, que você conheceu há tempos. Falava muito de um tal Zeca Bastos, que a colocaria como personagem em seu primeiro filme.

Zeca Bastos corou. Caiu a ficha. Tuca, aquela que insistia em ser atriz. Eram muito semelhantes, as duas.

Seu livro, uma coleção de contos que narravam os infortúnios dos esquecidos no cinema nacional, era uma tentativa pouco elaborada de crítica metafórica, digamos assim. E tinha, sim, colocado a personagem, mas a transfigurara em uma atriz incompreendida, campeã paulista de cirurgia plástica, no conto intitulado “Só mais uma vez”.

Olhando para a figura da irmã, confirmou a fantasia escrita e deu de ombros. Certamente, as manas jamais leriam seu livro. Nunca passaram da leitura da orelha e da apresentação de qualquer edição. O suficiente para terem assunto nas rodas que frequentam. Vão às livrarias apenas com esse intuito. Chegam a sacar o celular para tirar foto das capas, para não se esquecerem de onde tiraram alguma citação.

Para quem ainda não o conhece, Zeca Bastos é um sujeito introvertido com ares de extrovertido. É daqueles que consegue permanecer entre as pessoas num silêncio sepulcral e sorrir pequeno quando lhe apraz. Limita-se a exercitar suas sobrancelhas, ou fazer um muxoxo. É filho do Nordeste brasileiro, embora seu falar não permita identificar suas origens. Apesar da baixa estatura, sua presença é em geral notada pelo figurino urbano e pelo estilo contemporâneo. Está sempre em harmonia com o cenário exterior. É moreno, nariz fino e proporcional ao rosto, cabelo preto, liso e revolto, mesclado com alguns fios brancos. Seus olhos pretos, amendoados e certeiros, conseguem fazer uma varredura do local em que se encontra e pousar nos pontos desejáveis com uma eficiência milimétrica. Teve uma multifacetada vida: costureiro, pintor, arquiteto, diretor e produtor de teatro e cinema e, agora, escritor.

Na volta para casa, Zeca só pensava na contabilidade. Quantos livros vendeu e quantos ainda teria que vender para cobrir os custos da edição. Intuiu que a experiência seria interessante, apesar de nada lucrativa. Ainda teria que pensar em como dar vazão aos dois mil exemplares restantes. Olhou a paisagem de São Paulo do alto do vigésimo andar de seu apartamento, nas colinas da Vila Madalena. De repente pensou em Teca Lisboa. Ao mesmo tempo lembrou de Sartre. Definitivamente, o inferno são os outros. E limpou o canto do olho esquerdo.

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