Serão 366 dias. Ano bissexto. Surge uma ponta de esperança que me deixa intrigada. Qual o real motivo para tal? O que fazer com um dia a mais? Será um dia para celebrar nas férias ou para trabalhar?

Os dias são sempre especiais. Lembro-me bem do dia em que tirei meu segundo passaporte. O primeiro, era muito nova, fui só de acompanhante. Na época, não podia sorrir na foto, saí com cara de indigestão e com um corte de cabelo de gosto duvidoso.
O terceiro passaporte foi muito especial. Foi lá que carimbei minha primeira viagem sozinha. Frio na barriga e o mundo inteiro para explorar. Descobri que mulher sozinha quando viaja atrai olhares, curiosidade e incômodo. Deve ser a cultura diferente, pensei.

Mas não.

Meu último passaporte, em que já podia sorrir, me trouxe histórias, amadurecimento, muitos amigos, liberdade e a difícil realidade: mulher sozinha é sinal de que tem algo errado, e me remete a outra foto, que estampa os sorrisos de Maria José Coni e de Marina Menegazzo, as turistas argentinas violentadas e assassinadas no Equador, em fevereiro de 2016.

Como assim? Duas mulheres viajando sozinhas? Claro que são vítimas propícias, como argumentou o psiquiatra Hugo Narietán, que as definiu como mulheres que assumem “um alto risco e, de alguma maneira, formam parte do que movimenta o crime”.

Não se discutem os algozes. Discutem-se as impropriedades das mochileiras, limitando as mulheres a ficarem confinadas em espaços privados por segurança. Mas há segurança? Enquanto houver machismo e misoginia não haverá lugares seguros.

Nem a história nos permite segurança. Sister Rosetta Thaper, mulher negra e uma das pioneiras do rock, foi banida dos grupo de grandes nomes que construíram esse ritmo. 

O feminismo foi um filho indesejado até mesmo pela Revolução Francesa: igualdade, fraternidade e liberdade para todos, desde que não se incluam as mulheres. A verdadeira fundadora do movimento feminista, a escritora Mary Wollstonecraft, em resposta à “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, lançou o primeiro grande questionamento sobre os gêneros no livro “Reivindicação dos Direitos das Mulheres”. Somente agora será editado no Brasil. 

Há muitos nomes a serem citados, porque na história predomina o silêncio das mulheres e sobre elas. Não cabe relacioná-los aqui, então vou esquecer e escutar uma ópera, e me perguntar a quem interessava punir a cortesã saliente, a cigana libertária ou a gueixa que não ouve os conselhos do tio. Ópera ou a derrota das mulheres, como bem escreveu Catherine Clément. 

Ainda viveremos muito tempo sem respostas. É melhor dormir e sonhar com a foto do meu primeiro passaporte.

© Crônica coletiva com a participação de Renata Mendes e Marise H. Louvison