A combinação tácita é: grunhimos no elevador, entreolhamo-nos na garagem e nos evitamos na calçada. Naturalmente, elegantemente, sem dúvidas ou conflitos. A nova etiqueta manda ignorar o próximo, não perturbar seus murmúrios para não interromper os próprios discretos solilóquios confirmadores da sua solidão.

Arriscar uma aproximação corta o estado semiletárgico que essa nova droga abstrata produz: nada deve interromper a autocomiseração, os pensamentos e o exercício perene de ensimesmar-se.

Nada muda depois, já no ambiente de trabalho. A falsidade relativa do ar sempre gira em torno dos 80%, chove hipocrisia, sopra um vapor sulfuroso de mentiras e a sensação térmica é de se estar no meio do inferno. Chefes gritam porque ninguém ouve, ninguém sabe, ninguém sai de si. Olham-se e riem, palhaços mútuos, contracenando com ninguém.

De volta, em casa, tudo muda, todos mudos, cultuando a informática e a escoliose. Monólogos duais se sucedem, há som no ar. O cachorro é o único que ama.

Cansou um pouco. O isolamento dói, mas é uma dor menor que a entrega cega e não calculada. O medo do íntimo, o preço da decepção, a distração submersa, e lá vamos nós ao desencontro de nós mesmos.

Solidão individual tem até um ar de autossuficiência. Agora, a solidão a dois é a mais tortuosa. O outro está ali o tempo todo, com aquele olhar de “eu sei por que você está fazendo isso e não deveria, mas vamos deixar essa papo para outro dia”. Dizer coisas essenciais deu espaço para verdades absolutas de profundidade que batem na canela. Sem contar a falta de tempo para o que realmente importa.

Para mim, o que realmente importa é conseguir tomar aquele sorvete gelado no final de tarde de um dia ensolarado. Sentir de fato que o sol tem o poder de amolecer e derreter tudo que é mais gelado.

Mas para isso é preciso se expor. Se expor ao sol, aos outros, à vida.

O difícil da exposição é que naquele momento em que se derretem todas as minhas certezas, vem o manto da vulnerabilidade. Só que não esquenta como o sol. Parece que deixa a pele fina para qualquer vento ou olhar. O que era pequeno fica grande e o que era grande, definitivamente, perde o seu tamanho todo.

Viro de lado, na minha cama king size, pego o celular e vejo o que está acontecendo na vida dos outros. Me parece mais interessante, mais feliz do que a minha própria vida. Olho para o lado e ele continua na mesma posição, com o livro enfiado na cara desde de manhã. Onde foi parar aquele amor todo? Aquele interesse sobre a minha vida e os meus projetos?

A única coisa que me parece interessante aqui é que agora não preciso me preocupar se a raiz do cabelo está crescendo com todos os meus fios brancos gritando, e nem pensar horas sobre o que vou usar naquele jantar romântico. Aliás, romance só no livro mesmo.

Será que conto para ele que não estou mais feliz com a nossa relação? Será que conto que semana passada me fizeram a proposta dos meus sonhos no trabalho? Será que conto que o melhor amigo dele foi meu amante na adolescência? Será que ele se importaria com qualquer um desses assuntos?

“Amor, vamos dormir porque amanhã vai começar uma semana agitada!” Ele me beija na testa, aquele beijo que tínhamos prometido que nunca iríamos começar a fazer porque era sinal de que tudo tinha ido para o ralo. Viro de lado e choro. Mas tomo uma decisão: amanhã vou comprar um cachorro!

© Crônica coletiva com a participação de Luiz Geraldo Benetton e Renata Mendes 


Esta crônica faz parte de um exercício a que nos propusemos: com um mesmo parágrafo inicial, escrevermos duas crônicas. Veja a outra versão aqui.