Espelho espelho meu, quem eu seria se eu fosse eu?


Sou, hoje, quem eu queria ser. Foi um bom caminho até aqui, que me permite olhar para trás e pensar no que teria acontecido se eu fosse eu já aos 10 anos: ah, muito menos tímida. Aos 20, livre para sair de casa sem precisar de uma certidão de casamento como passaporte. E aos 25, teria suportado aquele inverno de menos dez graus e continuado a viagem que comprovaria, com anos de antecedência, minha perfeita capacidade de me adaptar às circunstâncias. Mas, por outro lado, se eu já fosse eu aos 30, talvez não tivesse acreditado em nosso reencontro, e que éramos, afinal, almas gêmeas.


Se eu fosse eu seria adepta da sinceridade comigo mesma e iria até a Biblioteca Mário de Andrade para ler todas as minhas vidas passadas. De lá, com novas asas, mergulharia no futuro. Ah! mas eu não sou eu, então permaneço amarrada nas teias do meu presente.


Quantas metades de mim ainda faltam chegar? Já nem sei. Algumas não espero mais, outras uma tênue esperança, e com o resto uma árdua tentativa de integração. Nunca soube a quantidade mínima de metades para compor um eu coeso. Conter multidões é uma licença poética que não cura, ao contrário, agudiza.

Se eu fosse eu, meu espelho não embaçava. Se eu fosse eu, já tava de volta.


Nem sei o que seria de mim se não fosse eu. Se eu não fosse eu, estaria na fossa. Ou na bossa. Me conhecendo bem, provavelmente na roça. Mentira! Estaria em qualquer lugar.


De tempos em tempos o incômodo me encontra, quando o silêncio brinca de esconde-esconde entre os porta-retratos de família e corre livre pelas prateleiras da biblioteca à minha frente. Nessa hora eu gostaria de ser um livro.

Se eu fosse eu, vestiria uma clássica capa dura de couro marrom, circundada com um leve fileteado porteño nos cantos e uma aveludada lombada quadrada vermelha com meu nome gravado em prata na vertical. Teria leitura da esquerda para a direita – detesto o contrário! Assim, me posicionaria bem ao centro da estante, naquela prateleira que fica bem à altura dos olhos de quem procura. E quando o leitor interessado chegasse perto, rasgaria o silêncio e sussurraria suavemente aos seus dedos: “me pegue”.


Multiplicar, dividir, somar…se eu fosse eu dividiria mais meus sonhos, multiplicaria a mim mesma para dar conta de todos eles e somaria ao final todas as bençãos que recolhi e pude compartilhar. Teria nas mãos a magia de fazer brotar a harmonia da desordem, como a bela flor de lótus. Estou poética? Deve ser o Natal.

© Crônica coletiva com a participação de Veruska Zanetti, Denise Faria, Marise H. Louvison, Luiz Geraldo Benetton, Renata Mendes, Patrícia Marcela Gabborin, Chris Santos 


Este conjunto de microcrônicas foi sugerido pela Denise, que recebeu durante uma oficina do escritor Marcelo Maluf a missão de escrever um páragrafo com o tema “Se eu fosse eu” baseado em texto de Clarice Lispector. Acabou sendo um contraponto para outro conjunto de crônicas breves escrito pelo grupo e que pode ser lido aqui.