Estamos todos sentados à frente dos computadores, a postos para o grande desafio: escrever sete crônicas em grupo ao longo de quatro horas. Coisa de doido num domingo de Carnaval.

Um frio na barriga, um aperto no peito, parece até paixão, e é dada a largada!

Que vontade é essa de ser livre para escrever sem compromisso com a realidade, e que afinal nos revela tanto? Pessoas que dividem um mesmo objetivo: colocar palavras no papel e lavar a alma pela escrita.

Tento esquecer a pressão que me coloca quase no limite do medo. Por que será que nessa hora do “nada definido”, com todos voltados para um mesmo fim, estamos dispomos a dar o nosso melhor?

A entrega vem finalmente, quase mágica. Uma adrenalina a nos mover. Será a mesma de um corredor de maratona? Bem, temos um local de chegada comum a todos.

Mas meu texto parece refletir pensamentos pesados. Como assim? Claro, pensadores normalmente pensam pensamentos pesados. Me pergunto qual a nossa verdadeira meta. Vivemos para alcançá-la ou queremos apenas traçá-la?

Logo penso como fico irritada com o atual uso da palavra “superação”. Por que está na moda? Em pelo menos setenta por cento dos artigos nos jornais é possível encontrá-la. Será que temos sempre que ultrapassar a meta, nos transcender, e ultrapassarmos os demais humanos na face da terra, até mesmo no universo?

Calma lá, melhor pensar em superar apenas esta maratona de textos, que já é bastante para um domingo. Afinal, este é um dia mágico de descanso.

Paro, respiro. Tento me inspirar em Machado de Assis, em Humberto Werneck, em Luís Fernando Veríssimo… O que esses escritores fariam se estivessem em meu lugar? No mínimo um copo de uísque ou uma tacinha de licor para evitar o bloqueio criativo e soltar a imaginação resolveria. Sigo digitando. E procuro me mover só pela paixão.

Lembro de uma conversa do Rui Castro em que ele afirma que um bom escritor tem de ser boêmio, correr da polícia, ter amantes, experimentar a vida sem pudor… E só assim ter material interno para escrever com riqueza de detalhes a vida como ela é.

Isso é tarefa difícil, é preciso ir além do desconforto de, por exemplo, ter agora um lugar silencioso para escrever sozinho. Aqui não, é a vida real. Crianças cantando na piscina ao lado, o barulho dos outros teclados mostrando que o tempo está passando, cada um criando seu próprio universo, minha imaginação em cima da imaginação do outro. Até sinto o fôlego encurtar.

O alarme, que logo vai soar, apesar de suave parece uma arma na cabeça, lembrando que o tempo acabou, pelo menos nesta crônica.

Dez minutos para um novo final. Inspira, expira, relaxa, concentra e… nada. Resisto em continuar, me perco, me distraio, ouço vozes fora da sala, penso de quem serão. Penso na rota do avião que passa com suas turbinas potentes: vai para Europa ou para uma praia do Nordeste? Finalmente, penso no teclado deste computador, diferente dos outros seis em que teclei nas últimas horas.

Tento lembrar das minhas primeiras palavras. Quais teriam sido elas?

Há pouco um casal ensaiou entrar aqui na sala, estancou na porta, sem entender o que via. Mediu cada um dos presentes e saiu. Contivemos o riso. Que bando de doidos é esse? Mas a coisa está dando certo, compenetrados vencemos nossa “travação”, muito suor sobre flashes de inventividade. Uma bela maneira de passar um domingo.

De volta ao meu lugar e com a rodada concluída, percebo que, sim, somos um pouco doidos, temos medo de não conseguir dizer o que queremos, de não ter nada a dizer e ainda assim ter que continuar. Buscamos nos superar, como reza a cartilha, mas que se dane se não conseguirmos!

Vivendo de aventuras, ou mesmo em um mundo pequeno, somos o que pensamos. E que bom que aqui entre nós, cronistas de primeira viagem, conseguimos uma ótima desculpa para externar o que sentimos.

Viva a crônica, vivamos nós, e viva nossa mais que perfeita imperfeição.

© Crônica coletiva escrita por Denise Faria, Patricia Marcela Gabborin, Marise H. Louvison, Chris Santos, Renata Mendes, Veruska Zanetti, Luiz Geraldo Benetton