Acho incrível como o brasileiro, e muitos gringos, são tomados por uma felicidade extrema na época do Carnaval. Festas pré, durante e pós-carnaval são frequentadas por frenéticos fantasiados, normalmente embalados por vodka, cerveja, beijo na boca e afins.

Antes era só Rio de Janeiro e Salvador. Agora São Paulo entrou com força total no circuito carnavalesco, e seus blocos de rua já são quase tão famosos como os cariocas.

Já passei por carnavais no Rio e em Olinda. Do Rio nunca vou esquecer, a onda de sensualidade da Banda de Ipanema, quase um ato cívico tal o fervor e o envolvimento de todo mundo pulando alegre. E dos gringos tentando sambar com um balanço quase patológico, sem graça e engraçado. Em Olinda eu não dancei, fui dançada, tal a densidade demográfica daquela noite. Uma atmosfera, digamos, perfumada.

Mas o melhor Carnaval eu ainda não contei.

Há uns dois anos estava me preparando para ficar em casa durante a festa de Momo e colocar em dia algumas tarefas domésticas. Foi quando uma amiga me chamou no celular com uma proposta nada carnavalesca: “Vamos pra minha cidade, é inauguração do bar de uns amigos. Só rock. Vai ser o oposto de Carnaval. Só música dançável, e nada de confete.”

Confesso que topei na hora, estava meio cansada dessa alegria forçada e Carnaval que dura uma semana. Quem aguenta tanta pulação e cerveja e beijo em bocas desconhecidas?

Mas logo em seguida bateu aquela desconfiança de gato escaldado de outros carnavais: e se for um estilo “toca Raul?”. Sabe como é cidade do interior. Bem, se for o caso, sugiro Rolling Stones, e duvido que alguém vá descartar a escolha.

Vamos nessa. A proposta de partir para “neverland” em épocas de Carnaval me fascinou mais que a preocupação de qualquer rock para quebrar meu encanto.

Cheguei na tal cidade com o coração aberto. Nenhuma crítica, nenhuma palavra. Apenas os olhos atentos para evitar uma surpresa desagradável. Esforço vão. Tudo conspirava contra mim. De cara alguns acordes dissonantes me congelaram, um cenário que parecia coisa saída dos filmes de Tim Burton. Lembro que não se avistava nenhum ser humano.

Minha amiga estava feliz no banco do motorista. Nem parecia estranhar a calmaria e a pouca iluminação das ruas. Onde estavam as pessoas àquela hora da noite?

De repente, escutei sinos a badalar. E fomos logo envolvidas por uma multidão em procissão em pleno Carnaval, trazendo velas nas mãos. O padre abria o séquito e tivemos que parar o carro. Que cena! Realmente, estava bem longe da pegação da folia.

– “Nossa senhora nos proteja”, cantavam os fiéis.

Ok! Estava disposta a ter um Carnaval diferente, então aquela festa religiosa já era um pouco demais. Minha amiga me olhava de canto de olho, com um sorriso nervoso, percebendo que minha cor estava mudando. Sim, estava ficando com raiva, muita raiva. Respirei fundo, tentei pegar por osmose um pouco da religiosidade que estava ao meu redor e soltei:

– Mas que merda é essa??!!

Ela, obviamente, não sabia, e corremos a procurar os amigos roqueiros para tentar salvar os próximos dias.

Chegamos ao sítio deles a poucos quilômetros do centro. Paramos o carro e, ao descer, não sei ao certo descrever o que senti. Vamos ver se me lembro: havia uma nave espacial construída com pedaços de metal no meio do gramado, doze pessoas a cercavam entoando mantras ininteligíveis, enquanto o líder do grupo tentava evocar extraterrestres. Os participantes estavam nus, cantando, cantando, enquanto o mentor tentava explicar para as forças do além que eles estavam ali de corpo aberto para fazer contato. Fumavam todos o mesmo cachimbo.

Fumavam, cantavam, conversavam com o além. Nada de extraterrestres. Pelo menos para mim. Resolvi encarar a parte do cachimbo. Fumei, cantei, fumei de novo, cantei mais alto. Acabei conhecendo um extraterrestre incrível. Ele vestiu a roupa, pegou na minha mão, e fomos curtir o Carnaval em Marte.

© Veruska Zanetti (abrindo e fechando), Chris Santos, Luiz Geraldo Benetton, Denise Faria, Marise H. Louvison, Renata Mendes, Patricia Marcela Gabborin