Nunca tive medo de nada. Quer dizer, de quase nada. O único que tenho sempre resolvi na base da evitação. É inadmissível que um sujeito como eu, com um metro e noventa de altura e cento e cinco quilos de músculos, possa ter esse ponto fraco. Faço academia, pratico surf, corro maratona, sou macho pacas, mas o tal medo me dá medo.

De hoje não escapo. Só faltam uns centímetros, um mísero espaço para vencer a barreira e me livrar dessa fantasia absurda, que me acompanha desde criança. Ouço o chamado para romper o limite. Um misto de fascínio e pavor toma conta de mim. Começo a suar, tremer e temer pela minha sorte no futuro próximo.

A voz suave é substituída por outra estridente e severa. Gritam meu nome no alto-falante. Minha noiva já entrou e disse que, se eu não embarcar, joga a aliança no vaso da aeronave e desce livre em Paris. Chantagista.

Etapa vencida, nada muda dentro de mim. Lúcia puxa conversa. Respondo como sempre, lacônico. O jantar é servido. Encaro aquelas caixinhas na bandeja e meu estômago, companheiro do cérebro, se agita em movimentos peristálticos. O olho pisca como luz de farol no oceano. Não tenho mais controle sobre os movimentos das pernas e dos braços. Faço barulho com a boca, em um frenético vai e vem da mandíbula. Abro e fecho minhas mãos e estico todos os dedos. Depois, massageio-os um a um.

Quantas horas faltam? Vejo o filme, leio um livro, arrisco um sono. Charles de Gaulle à vista. Levanto e pego as bagagens. Arrumo o cabelo e as roupas amassadas. Suspiro lentamente. Minhas pernas começam a tremer, e me preparo para a segunda rodada. Haja força!

Depois de muitos anos enfrentando um pesadelo recorrente, vou me ver frente a frente com a Dama de Ferro! Adiei o máximo que pude. Evitei essa viagem durante o primeiro casamento, para frustração da Lívia, que queria tanto conhecer Paris. Já a Lúcia me pegou de jeito, aproveitando que estou perdidamente apaixonado.

Mas que medo é esse que uma torre causa em mim? Por que sempre me vejo saltando do último andar num voo desgovernado, sem chegar ao solo? Quando era criança, tio Alberto, eterno viajante, tinha na parede do escritório uma sequência de fotos da construção da “grande senhora”. Olhava e pensava em todos os homens que subiram corajosamente na estrutura gigantesca por alguns centavos. E ficava horrorizado, me lembrando dos miseráveis de livros como Oliver Twist, trabalhando de sol a sol.

Na mesma parede havia a foto de Santos Dumont no balão nº 5, contornando a torre. O retrato me tirava o fôlego. E meu tio, incansável, repetia a história das pessoas em Paris ovacionando e acompanhando o feito lá do alto.

Pensando bem, imaginar esse momento ainda me emociona. Talvez essa lembrança seja uma saída para que eu possa embarcar no sonho romântico da Lúcia. Que venha a imagem do próprio Santos Dumont dando voltas sobre a Dama e sobre mim!

Antes da viagem, um amigo zen havia sugerido uma forma de me livrar do pavor incrustado: concentrar toda a energia negativa em um único objeto, e decretar seu fim de forma irrecuperável, com muita fé. Gostei da ideia. Seria uma alternativa para o caso de o devaneio me trair lá no alto.

E finalmente aqui estou, depois de subir, sabe-se lá como, de bermudas, camisa florida, óculos escuros e máquina fotográfica com teleobjetiva pendurada no pescoço. Como poderia um ser da minha envergadura passar despercebido? Lá do alto do mundo olho fixo para um ponto distante no céu, aponto com o braço esquerdo e digo, com um sotaque californiano: ”Flying saucers, flying saucers!”.

Enquanto a turma toda de turistas se vira para ver o que é, num átimo jogo o aviãozinho de papel que trouxe escondido. Meu 14 Bis particular, meu avatar, se distancia suavemente, a flanar sobre Paris. Nem dou bola para o beliscão da Lúcia. Só quero olhar para ele indo embora de forma lenta e elegante. Avisto até quanto minha acuidade permite.

Se alguém o encontrar e tiver a curiosidade de desdobrar o papel, lerá num francês improvisado: “Meu medo voou junto, estou curado.”

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