Começo de ano é brabo: junta preguiça acumulada das férias – curtas demais, caras demais, com gente demais – e as incertezas costumeiras. Por isso a cada virada tenho menos vontade de grandes comemorações e preferido a quietude, com gente que amo, usufruindo da maneira mais simples, e ainda assim profunda, de uma sensação de paz. E nada mais.

Um amigo me disse que os anos vêm passando cada vez mais depressa porque depois dos 40 já temos uma grande experiência em contar 365 dias, daí que fazemos isso quase sem pensar no que vamos vivendo, ou melhor, sem viver plenamente tudo que podemos.

Pensando nisso começo agora esta crônica alinhavando algumas formas eficazes de viver VIVENDO, e não apenas contando os dias no novo calendário que acabei de pregar na parede.

Vejamos, a primeira coisa que vou fazer é me exercitar. Eu devia ter ouvido quando minha mãe dizia que eu não teria o corpinho de vinte anos para sempre. Se bem… Se bem… Agora já estou assentada. Não preciso de cinturinha fina para seduzir mais ninguém. Vou apenas fazer uma caminhada todo dia. Isso mesmo. No parque. Onde tem árvores e o ar gostoso de respirar.

Vou me encontrar com os amigos, mostrar-lhes o quão importante são na minha vida. Na minha lista da vida vivida acrescentarei isso. Darei ao menos um jantar por mês em minha casa. Ou quem sabe um almoço? Certamente será bom ter a casa cheia novamente, ainda mais de pessoas queridas.

Rabisco todos os meus planos num post-it amarelo grande. Vou colá-lo à geladeira quando terminar. Pensando bem, vou mantê-lo comigo, sempre à mão. Assim posso ir riscando as coisas que fiz e, desta maneira, aproveitar a vida ao máximo. Parece uma boa ideia. Não muito original, é verdade – todos usam o começo do ano como desculpa para montar suas resoluções –, mas boa. Além do mais, serei diferente. Estou comprometida com respirar o ar mais puro, beber da água mais doce, gritar do monte mais alto… Tudo com moderação, obviamente. Quero viver. E para isso é preciso estar bem viva. Afinal de contas, não foi só a aparência que mudou com o passar dos anos.

Onde estava mesmo?…

Vou fazer um checkup! Vai ser bom ver que está tudo em ordem. Mas… e se não estiver? Acho que checkup não é boa ideia. Vou ao menos cuidar da gastrite que resolveu dar as caras. Sem molho de tomate, queijo, doces, frituras, chocolate, álcool. Se bem que acho que não dou conta de tirar o chocolate e o vinho. Ah, não, vou tomar os remédios para aliviar o desconforto por mais um tempo e depois penso na dieta.

Vou poupar dinheiro. Decididamente serei mais econômica e só comprarei o estritamente necessário. Preciso pensar no bolso, além do que as roupas são de materiais derivados do petróleo e fazem um mal danado ao meio ambiente. É isso, vou ser ecologicamente correta e não vou comprar mais nada. Vou usar o que já tenho, reciclar, remodelar. Apesar de que agora em janeiro tudo vai estar em liquidação… Hum, aquela bolsa azul, a calça de seda, o vestido longo, tudo pela metade do preço! Pensando bem, o meio ambiente não vai ficar tão pior se eu aproveitar só mais essa semaninha de preços baixos. Sim, vamos deixar essa resolução para depois do carnaval…

Serei mais pontual. Neste novo ano não vou chegar mais atrasada ao trabalho, à aula, aos encontros. Decidirei a roupa que vou usar no dia anterior, e não vou ficar trocando mil vezes até vestir aquela primeira que tinha escolhido logo ao sair do banho. Chega de indecisões.

Vou comer só produtos orgânicos, vou diminuir o consumo de sal. Vou tirar o glúten e a lactose, mesmo sem precisar. Tá na moda! Moda, moda, moda, ai, preciso ir ao shopping aproveitar as liquidações….

Opa, onde eu estava? Ah, sim…

Vou agarrar meu futuro, fazer do meu jeito, me aceitar como eu sou, jogar fora as folhas do calendário com os meses que ficarem para trás, parar de contar os dias e contar as conquistas, enfim, VIVER cada minuto, amém.

© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Luiz Geraldo Benetton, Renata Mendes e Veruska Zanetti