A combinação tácita é: grunhimos no elevador, entreolhamo-nos na garagem e nos evitamos na calçada. Naturalmente, elegantemente, sem dúvidas ou conflitos. A nova etiqueta manda ignorar o próximo, não perturbar seus murmúrios para não interromper os próprios discretos solilóquios confirmadores da sua solidão.

Arriscar uma aproximação corta o estado semiletárgico que essa nova droga abstrata produz: nada deve interromper a autocomiseração, os pensamentos e o exercício perene de ensimesmar-se.

Nada muda depois, já no ambiente de trabalho. A falsidade relativa do ar sempre gira em torno dos 80%, chove hipocrisia, sopra um vapor sulfuroso de mentiras e a sensação térmica é de se estar no meio do inferno. Chefes gritam porque ninguém ouve, ninguém sabe, ninguém sai de si. Olham-se e riem, palhaços mútuos, contracenando com ninguém.

De volta, em casa, tudo muda, todos mudos, cultuando a informática e a escoliose. Monólogos duais se sucedem, há som no ar. O cachorro é o único que ama.

Cansou um pouco. O isolamento dói, mas é uma dor menor que a entrega cega e não calculada. O medo do íntimo, o preço da decepção, a distração submersa, e lá vamos nós ao desencontro de nós mesmos.

Nos enchemos de atividades para preencher o tempo e o vazio. Nos esquecemos das vozes dos amigos e as conversas tornaram-se breves, resumidas em letras e figuras.

Os abraços tornaram-se pequenos toques tentando traduzir nossa falsa felicidade. Os sorrisos são ocos, o querer bem, distante.

O imediatismo toma conta dos nossos sonhos. Tudo tem que ser agora, não há margem para erro. O imperfeito nos assombra e o egocentrismo nos limita.

O fone de ouvido com nossas playlists cuidadosamente organizadas nos tornam surdos, alheios ao barulho do mundo, ao zumbido caótico do coletivo.

O tempo nos falta, nos obriga a correr. E nessa maratona de atividades até o por do sol nos foge aos olhos, aos sentidos. Temos pressa. Alimentamos nosso corpo com fast food, nosso cérebro com Wikipedia, nossas emoções com Prozac. E tudo passa, rápido e seguro.

Vou ligar a TV, vou colocar meu jantar no micro-ondas, comer enquanto checo meus e-mails. Vou responder monossilabicamente minhas mensagens no celular, vou sentar confortável na minha poltrona em companhia da minha solidão.

Já tomei meu calmante para vencer a insônia. Logo o sono vem, e com eles o sonho, seguro. Vem cá, Rex. Boa noite.

© Crônica coletiva com a participação de Luiz Geraldo Benetton e Veruska Zanetti