Feriado – dia do trabalho. Rumo ao interior do estado para visitar a família. Nunca havia visto um trânsito igual naquele ponto, antes e depois do posto de pedágio. Ligo o rádio e descubro o motivo do congestionamento. “Tomorrowland” em Itu.

Como assim, do que estão falando? O entusiasmado locutor me esclarece. Estou nas proximidades do acesso ao maior festival de música dos últimos tempos. Quem diria! Como sou desavisada!

Passam carros. Passou a estrada. De noite, zapeando na TV, novamente: “Tomorrowland”. Aquele povo chegou lá! As imagens mostram um mar de jovens pulando e dançando ao som de música eletrônica alucinante e ensurdecedora, alguns enrolados na bandeira de seu país. Diversidade para ninguém botar defeito. No centro do palco os DJs provocam a participação de todos e ao fundo um cenário com “O livro da Sabedoria” – que vai narrando a promessa de momentos mágicos nessa terra do amanhã.

Até fiquei atraída pelo inusitado da narrativa fantástica do evento e pelas colagens eletrônicas das músicas que hipnotizam, minimizando a importância das letras. Mas me peguei pensando por que a escolha de um livro para aquele altar tecnológico? Qual seria a mensagem subliminar daquela biblioteca fantástica?

Estranho pensar que uma geração que caminha pelas ruas de cabeça baixa, totalmente focada em seus celulares, estava ali aos milhares, de braços erguidos e em verdadeira devoção a… um livro.

Devo confessar que tenho uma queda por essa comunidade. Sempre surpreendem. Essa história de loucos por tecnologia e ódio à leitura pode ser pura intriga. Desconheço qualquer estatística que possa confirmar, mas penso que nunca houve tantos adeptos da leitura como agora. Harry Porter e o tal Senhor dos Anéis comprovam. Esses frenéticos seres deixarão um legado – a pluralidade de escolha.

Agradeço em nome de todos os escritores, bibliotecários e amantes de livros por ver que, mesmo na loucura desenfreada, as tribos parecem estar ali pelo livro. Não sei se é exatamente assim que se sentem. Talvez, se perguntássemos a um jovem sobre seus sentimentos para com o festival ele diria algo relacionado à música, DJs irados, uma bala só para descontrair. Mas sonhar é de graça, né?

Fim de feriado. Refaço meu caminho rumo à capital. A rodovia Castelo Branco está quase limpa, o carro mais próximo encontra-se quase a um quilômetro de distância. Nenhum motorista espertinho me apressa e os caminhões trafegam tranquilos, sem me pressionar. Posso me dar ao luxo de largar os ombros, apoiar o cotovelo na janela e ouvir uma música qualquer do naipe do festival. É uma batida repetitiva e enjoada, acompanhada de uns gritos irracionais, porém, surpreendo-me ao notar que estou batucando no couro do volante.

Pensando bem, é uma música contagiante que bate como uma droga, com sua narrativa musical alucinada e misteriosa, mas assim como um livro pode nos invadir e tomar.

© Crônica coletiva com a participação de Patrícia Gabborin, Denise Faria, Marise H. Louvison


Foto: Divulgação Tomorrowland