Saio de casa cedo pra aproveitar o sábado ensolarado. É dia de feira orgânica no Parque da Água Branca. Como preciso comprar frutas e verduras, aproveito e combino com minha amiga Marise de nos encontrarmos lá, por volta do meio dia, para lhe entregar um pacote que havia esquecido no meu carro em nosso último encontro.

O parque destoa totalmente de seus arredores, na movimentada Avenida Francisco Matarazzo. Apresenta-se numa paisagem bucólica, com suas casinhas amarelas e árvores enormes, que fazem sombra para o conforto dos visitantes. Chego às onze da manhã e encho o carrinho de compras com legumes frescos, livres de agrotóxicos.

Na saída percebo um movimento curioso em um salão ao lado da feira. Damas de vestidos extravagantes e flores no cabelo e senhores em trajes sociais caprichados, uns com suspensórios, outros com sapatos lustrosos, dançam alegremente ao som de Nelson Gonçalves.

Imagino que a média de idade seja de 80 anos. Há mais mulheres que homens, o que me faz concluir que elas são mais animadas – ou será que eles morrem antes?

Sinto curiosidade e peço licença para entrar à senhora que fica na porta recebendo os convidados. Deixo o carrinho com as compras encostado à porta de entrada. Desconheço o conteúdo do embrulho que carrego comigo e, para evitar perdê-lo, mantenho nas minhas mãos.

Sento próxima às mulheres que esperam um parceiro para a próxima dança. Um senhor se aproxima e me convida para dançar. Veste um terno de linho azul calcinha, tem uma vasta cabeleira branca e usa um sapato bicolor de bico fino. Chutaria que tem uns 120 anos, não fosse pela vitalidade que mostrava dançando com a mulher de igual idade trajando vestido de poá.

Aceito animadamente e deixo o tal embrulho no sofá. Rodopio achando graça, sendo o centro das atenções como a caçula do baile. Agradeço ao velhinho e saio apressada da festa. São 12h20. Encontro a Marise, que está a minha espera sentada num banco do parque.

Em minhas mãos, o carrinho de feira e… meu Deus, o pacote! Conto o infortúnio para minha amiga e voamos para o baile. Começa a procura para cá e para lá, falamos com todos os seres rodopiantes e com os plasmados. Procuramos guardas, vigias, presidentes, zeladores, curiosos e… nem sinal. Fora abduzido.

Olho para a Marise suplicando perdão. Ela está com os olhos apertados e fazia muxoxo com a boca sem emitir qualquer palavra. Só se ouvia o respirar nervoso. Talvez pensasse em alguma saída conciliatória. Eu continuava curiosa com o conteúdo. Dávamos passos para lugar nenhum.

Após arrastados minutos sentou-se em um banco, exaurida. Respirou fundo e me contou que o pacote misterioso se tratava da urna funerária com as cinzas do Charlie, sagrado pet canino do famoso amigo de Brasília, Zeca Bastos. Ele lhe pedira que o conteúdo fosse espalhado no Parque Burle Max, em São Paulo, para que o ato fosse harmônico com sua existência zen. Bastos era afetado em todas as suas entranhas e sempre surgia com pedidos glamorosos e complicados para seus seguidores. Nesse caso, aproveitava para se vingar dos desígnios humanos que proibiam a entrada de cachorros no parque. Charlie optou por um desfecho em que jamais seria banido. Decidiu por terminar sua jornada na Francisco Matarazzo, avenida mais próxima à sua vida de cão.

Seguimos para o chope de sábado. Que Deus o tenha!

© Crônica coletiva com a participação de Marise H. Louvison e Veruska Zanetti