Caro leitor,

há tempos escrevo aqui sobre o meu dia, minhas indignações, descobertas, sobre os meus “causos”, e somente hoje me dei conta de você. Como será que está o seu dia? Será que bateríamos um bom papo se nos encontrássemos na gôndola de temperos do supermercado? Será que iríamos falar sobre o tempo no elevador ou trocar um sorrisinho amarelo sem graça? Você ri ou chora comigo? É aquela moça que sempre vai à padaria gourmet nos Jardins às quartas-feiras no meio da tarde, enquanto estou procurando inspiração para os meus textos? Sinto-me tão próximo, compartilho meus pensamentos mais profundos e íntimos, mas ao mesmo tempo não sei quem você é.

Recuso-me a fazer desta crônica um “mea culpa”. O fato é que hoje, sei lá por que, preciso deixar registrado que penso em você. Acredito que de alguma forma sentimentos compartilhados garantem o nosso reencontro de tempos em tempos. Eu cá e você desse outro lado do papel, ou da tela. Então, posso afirmar que estamos, sim, conectados neste espaço tênue e mágico. Seus olhos enxergam minhas ideias, ou as guarda esquecidas no fundo da mente. Ou as elimina. Ui, isso dói. Nenhum escritor gosta de pensar que é rejeitado. Já me bastam as linhas e os pensamentos apagados por mim mesma!

Entenda, quero escrever para você com exclusividade. Decodificar suas angústias, alegrias, tristezas e esperanças. Como disse antes, estamos conectados, mesmo sem te conhecer. Todavia, quando percebo, lá estou outra vez ao olhar para dentro de mim. Sinto-me como Simone de Beauvoir, que só conseguia escrever ficção na primeira pessoa.

Enquanto tento me convencer de que aqui escrevo a verdade, nada além da verdade, para assim me sentir próxima de você, e exclusivamente de você, o resultado é mera ficção, disfarce do que me vai pela alma, mas que nunca alcançarei.

Acho que, afinal, mesmo sem nos conhecermos, você, leitor, me deixa nua.

© Crônica coletiva com a participação de Renata Mendes, Patrícia Gabborin, Marise H. Louvison, Denise Faria


Esta crônica faz parte de um exercício a que nos propusemos: com um mesmo parágrafo inicial, escrevemos quatro crônicas, sempre alternando a participação dos autores do grupo. Veja uma outra versão publicada aqui.