“Coração aprisionado/não canta, não canta amor/há uma fera à solta,/à solta, amor, dentro de mim, ai…” (Luli e Lucinha)

Dentro de mim moram muitas crônicas. Vivo o que está ao redor e vou escolhendo temas que guardo e quero algum dia revisitar. Anoto tudo mentalmente e prometo a mim mesma retomá-los e levá-los para o papel. Os dias passam, e esse momento não se concretiza nunca.

Então o acaso vem me ajudar numa reflexão sobre essas tantas palavras aprisionadas.

O comentário de uma amiga me leva a um disco do final dos anos 70 que marcou época e me marcou por seu lirismo e sonoridade. É de uma de suas músicas tão queridas a estrofe no início da página. Ouvi-lo novamente foi surpreendente, porque ainda me lembrava de cada canção, mesmo depois de tantos anos. E assim fui fazendo um resgate de melodias e, mais, de um tempo passado.

Essa capacidade maravilhosa de libertar melodias guardadas na memória me dão uma pista de que é possível resgatar outras coisas que vão pela alma.

Falo de amores esquecidos, de lugares visitados, de dores sentidas e de vontades não realizadas. Do cheiro bom de bolinho de chuva fritando na frigideira, da pele macia da mãe ao atravessar uma rua segurando minha mão, dos pingos da garoa fria escorrendo pelo cabelo ao voltar da aula em companhia de amigas ruidosas, e da imagem daquela relva na qual sempre sonhei deitar para ouvir a grama crescer.

Há também a lista dos pedidos feitos à primeira estrela que aparecia no céu, pedidos que foram soltos ao vento com desejos jamais realizados. Dentro de mim, toca a melodia que me traz o casaco vermelho que vestia para apanhar manga verde caída no chão em dia de tempestades. O peão de metal colorido, que girou tão rápido como a minha vida. Hoje já nem sei se sou uma sonhadora sem esperança, sem vagalumes presos na mão para iluminar meus caminhos.

Já as melodias sempre retornam. Eu as acesso quando quero ser feliz ou quando estou profundamente triste. Seus acordes penetram meus poros, fazem parte desse corpo que já perdeu sua integridade, mas não perdeu a simbiose com suas lembranças.

Minha voz agora é frágil, embora ainda consiga cantar para a árvore da montanha que tinha um galho, uma folha e um broto. Broto da árvore com um ninho e um pássaro. O mesmo pássaro que me deu asas e um dia me ensinou a não deixar aprisionada a fera solta dentro de mim.

© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria e Marise H. Louvison