Quero ser a Alice eterna, uma menina de 150 anos que enlouquece e apavora as crianças e adultos do mundo até hoje. Desvendar seus enigmas sem cair no buraco, muito menos entrar na toca do coelho branco de olhos cor de rosa e relógio no bolso do colete, sempre preocupado com as horas, como todo paulistano. Fazer mesura enquanto despenco no ar à procura do sorriso do gato, que me indicará o melhor caminho para fugir desse mundo insano. Na espera das respostas, tomarei chá com o chapeleiro maluco, que, como eu, também assassinou o tempo, desfigurando o andamento da canção.

Quero ser Píppi Meialonga, colorida e valentona, para sempre a menina mais forte do mundo, e carregar para longe todos os valentões que ameaçam tirar de outras meninas o desejo de sonhar. Quero ser esquisita e desbocada, xingar à vontade e viver do meu jeito. E gastar minhas moedas de ouro satisfazendo os desejos mais absurdos das crianças que vivem nos casebres que enxergo da proa toda vez que navego em meu barco pelas águas calmas dos mares do sul.

Quero ser Lúcia, com um reino para muito além do sítio da minha vó Benta, arrebitando cada vez mais meu narizinho. Falar mais que a Emília, fazer voos sem pirlimpimpim e confundir as águas claras tornando-as turvas, enquanto asso o Marquês de Rabicó. Quero ir às nuvens na garupa do Tom Mix e cantar com a cigarra, ao mesmo tempo em que surrupio a lâmpada do Aladim, para ter o gênio como escravo, e depois me encher de joias e sair por aí.

Quero ser tantas, tantas forem as chances de fantasiar imagens, cores e sabores, memórias, descobertas e revelações, experiências de alma, dança das ilusões e conhecimento assentado. Tudo isso junto e misturado, numa sopa de vida plena e feliz. Quero meu eu se expandindo para além do meu curto limite, quero abraçar o mundo e dar voltas no universo. Quero tudo e mais um pouco. Quero amar e ser amada, perdoar e ser perdoada, partir ficando e ficar partindo.

Meu Deus, quanta coisa para perseguir através do espelho! Um dia eu conto o que encontrei por lá.

© Crônica coletiva