Tem uma coisa que sempre resvala no meu mau humor. Já lutei contra esse sentimento, mas não tem jeito. Toda vez que entro num elevador ele aparece. Se tiver uma pessoa dentro, o equipamento de medir humor fica amarelo. Se entrarem mais duas, o ponteiro estoura no vermelho. Por que tanta má vontade em utilizar uma máquina prosaica? Nada a ver com a geringonça, e sim com a situação desconfortável de ficar próxima a pessoas desconhecidas. O pior mesmo é quando alguém decide puxar conversa. Já notaram o quanto isso é desagradável? Falam sobre o tempo, fazem gracinhas achando que todo mundo está disposto a rir, e outros até jorram questões individuais.

Na última quarta-feira, estava no elevador do prédio em que trabalho, no 16º andar, quando a porta se abriu uns dois andares abaixo e uma moça entrou em lágrimas. O choro era indiscreto. Quase chegava a uivar, e eu sem saber o que fazer. Ao perceber minha presença, me perguntou de forma abrupta:

– Como lidou com os vagabundos que teve na sua vida? Já pensou em cair na garganta deles e estrangular?

Lá do fundo do elevador eu arregalei os olhos e lancei um sorriso amarelo. Será que deveria responder alguma coisa? Tentei ver quantos andares ainda faltavam para o térreo. Apenas dois. Que bom! Respondi, já saindo do elevador:

– Tenha calma, menina. Tudo se ajeita na vida.

Procurando as chaves na minha bolsa e, como sempre, sem encontrá-las de primeira, senti uma certa vertigem ao pensar em todos os vagabundos que tive vontade de estrangular, e até uns que consegui. Tento exercitar a compaixão, mas anda tão difícil.

Em instantes a moça se colocou ao meu lado dizendo:

– O Rubens foi o homem que mais amei nessa vida, dediquei os últimos dez anos a ele e agora, o desavergonhado, me troca por um homem.

Olhei para a moça com perplexidade e certa comoção. Aquilo me despertou a curiosidade: qual era o problema, ser trocada ou ser trocada por um homem?

Chamei-a para um café. Sentamos. Fizemos os pedidos – café gelado para mim, café com conhaque para ela. Perguntei o que havia acontecido.

– Conheci o Rubens na faculdade. Fomos namorados. Foi o primeiro homem da minha vida e sempre me disse que fui a sua primeira e única mulher. Eu estudava engenharia. Ele, Artes. Sempre foi um homem sensível e altruísta. Eu trabalhava, ele cuidava da casa, dos filhos. O sexo não era lá grande coisa, mas como eu ia saber se meu parâmetro são as novelas da Globo… Sabe que ele sempre gostou de ficar no banheiro me olhando enquanto eu me maquiava? Gostava de escolher meus vestidos.

E continuou com mais pormenores íntimos, suas expectativas, projetos, e, principalmente, suas renúncias para manter o relacionamento. Incrível como nós, mulheres, nos abrimos com facilidade. Se fosse homem enchia a cara, pegava uma qualquer e pronto.

E de tanto se abrir comigo, acabou concluindo que não tivera quase nenhuma responsabilidade na separação. Sim, o processo era dele, querendo ser mais ativo, mais realizador, mais fálico, por assim dizer. Mas, por que procurou outro? – perguntava-se, agoniada.

Parece que catarse dá resultado. O olhar dela brilhou com um insight demolidor:

– Agora compreendo. Tanto quanto Rubens gostava de me olhar, também gostava de vê-lo elegante em seus ternos. Esse mundo cor-de-rosa e delicado de mulherzinhas nunca me encantou. Sempre valorizei minha força e segurança. Acho que no fundo vivemos anos em papéis trocados. Tenho que repensar o destino dos meus afetos. Talvez uma companheira me faça mais feliz…

E com essa teoria ela me deixou, em busca de uma nova etapa de vida. Comecei a suar frio e aquelas borboletas no estômago iniciaram voo. Como assim? Como saio dessa agora? Logo eu que vivo minha vida de forma tão estruturada. Cuido dos filhos, a vida social se resumindo a clube e festinha na casa de amigos. Tenho meu marido que transa comigo somente no papai e mamãe. Ah, já deu! Vou pintar as pontas do cabelo, fazer as unhas e saio dessa. Só me faltava isso. Mulher em busca de uma companheira dando tiro para todos os lados.

Estou no elevador mais uma vez. Evito responder aos cumprimentos que me dirigem. Mau humor anunciando sua chegada. Parece que apertaram todos os botões. Sigo irritada, porém com o coração palpitando na expectativa de encontrar alguém em choro convulsivo. Será?

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