Passando novamente por ali sinto um arrepio. Uma sensação forte, presente, que me invade e chega a perturbar de tão intensa. Nunca pensei que uma experiência assim pudesse me marcar tanto. Lembranças vívidas, imagens reais – ou assim parecem – sons, o ambiente todo se reproduz como o cenário descortinado de um espetáculo teatral.

Tenho que tomar cuidado em não perder o equilíbrio, e me esforçar para me manter no aqui, agora, com risco de cair num sonho desnorteador.

Fazia um tempão que não voltava para esses lados. A gente nunca sabe como são as armações do futuro. Só me dei conta de que estava próximo quando veio o primeiro calafrio, espontâneo. Aí já não dava mais pra voltar.

Esperara tanto por esse momento que achei que merecia ser perfeito, num lugar especial.

Vinha aqui quando pequeno desafiar as ordens da vovó, que dizia ser perigoso. Ela sempre contava a história de um homem que pegava as crianças que iam até lá, enfiava num saco e sabe-se lá o que acontecia depois. Ficava em pânico e nunca esperava para saber o desfecho do homem do saco. Quando adolescente, matava aula para ficar lá em cima, fumando e jogando baralho. Meu primeiro beijo foi com a Beth, e me lembro perfeitamente do sol se pondo enquanto ensaiava o ataque. Elizabeth era linda, e depois sempre subíamos e ficávamos aos malhos durante horas.

Agora novamente no ponto mais alto daquele parque, dessa vez sozinho, estava de volta para ver a paisagem do bairro de Pinheiros se exibir toda para mim. Lembro de abrir a mochila e retirar de lá o pequeno caderno de capa preta e poucas folhas, algumas usadas para anotações que vinha juntando há meses, esperando por aquele momento.

Ouvir os passos apressados dos esportistas de final de tarde ao meu redor não me distraía, empenhado que estava em levar para o papel toda a verdade do que vivia. Tinha combinado comigo que só sairia dali com o texto finalizado. Ainda assim precisei reescrever muitos trechos antes de dar por concluída a missão.

Desde pirralho, sempre quisera ser escritor. Imaginava meu futuro como um ensaísta ou cronista. Romance nunca foi muito minha praia, até hoje. Quando se é jovem, tudo passa muito rápido, romance demora muito, tem muita enrolação, lero-lero. Na crônica e no ensaio é direto e reto.

Ainda no fim da adolescência li que um cronista está sempre de olhos bem abertos e ouvidos atentos, que a crônica é um relato em licença poética, uma poesia cheia de prosa.

E assim escrevi minha primeira crônica: observando um homem na sua meia idade andando aflito em direção a este parque, vi que parecia excitado, hesitante, olhava sem pressa detalhes que só ele valorizava, sorria sozinho, discretamente tocava nas árvores e muros e deixava escapar gestos em uma coreografia introvertida. Foi o bastante para imaginá-lo voltando a um lugar algo sagrado e carregado de recordações, revivendo emoções nunca apagadas, medos infantis, as primeiras transgressões, seu primeiro beijo e um pôr de sol temperado com malícia.

Precisava de um título, e do nada me veio: “O mundo é redondo”.

© Crônica coletiva com a participação de Luiz Geraldo Benetton, Veruska Zanetti, Denise Faria