O dia estava divino, com a brisa peculiar de Agosto. A areia fresca e o mar, com seu imenso azul e verde, entoava intermitente a música das ondas e brilhava aquecido pelo encontro dos raios matinais.

Estando ainda frio para me atirar num banho a essa hora, me instalei no Kaiamba como de praxe, pois, por um suco e um petisco, esse bar é o único que oferece wifi de graça, o que me mantém conectada e me acalma.

Assim me entrego a mais um dia de praia.

Enquanto me acomodava, observava a abertura do comércio alternativo. O movimento dos quiosques e a chegada dos ambulantes, que circulam incansavelmente por toda a praia. 
Roupas, óculos, chapéus, biquínis. Assim se abre, para além do ócio, o comércio na praia. Deito na toalha estendida na areia e me entrego ao sol e ao descanso.

Rapidamente começam os trabalhos: “Quer experimentar algum óculos, madame? Veja quantos modelos!”. “Nãããoooo, obrigaaaaada”. 
Como as ondas, no vai e vem, a vida dos ambulantes segue: “Chapéus, bonés, lenços e acessórios!”, “O dia vai ser quente senhora, não quer levar um boné?”. Viro de lado. “Nãããoooo, obrigaaaaada”.

Evitando ser atingida em meu humor, me desloco para mais perto do bar, longe do corredor de ataque dos ambulantes. Estendo novamente na areia a toalha e retomo o sossego. Dali a pouco escuto bem alto: “Viiiixeeee, soube do Clodoaldo, ontem?”, “Sei não!”, “Roubarum todo seu ganha pão du meisss! Levarum sua prancha cheiiiinhaa de óculusss. Sumirum cum ela toooooodiiiinha!”.

O burburinho no bar me chama a atenção e levanto para pedir uma água de côco e sair um pouco do sol quase a pino. É interessante ver como as pessoas estão revoltadas pelo ocorrido, parecendo até que tinha sido com elas. Todas as hipóteses começam a surgir, desde ter sido o ladrãozinho do povoado ao lado, que já usara seu talento de mão leve para roubar celulares e carteiras dos turistas, até a teoria do Clodoaldo ter esquecido, não se sabe onde, todo seu mostruário depois de uma farra regada a muita cachaça. Aliás, não era segredo para ninguém sua queda pela branquinha.

Enquanto o burburinho aumentava e eu sorvia a água de coco, pensava na história da contravenção. Clodoaldo é um contraventor porque não deve registrar suas vendas ao fisco. Valeria aqui a eterna frase do “ladrão que rouba ladrão merece perdão”? Aí minha cabeça não parou mais de pensar na corrupção, no desmando, na bagunça que é esse Brasil, além de lembrar que afinal nosso amigo vendedor de óculos não deixa de ser um trabalhador dentro da informalidade que o país sempre permitiu. Enquanto cabeça e corpo fervem de tantos pensamentos e calor, resolvo deixar brotar meu lado Macunaíma e procuro uma rede para balançar meus sonhos antropofágicos.

Mas antes um mergulho no mar. Paro na beira esperando o melhor momento. A praia é de tombo e todo cuidado é pouco. As ondas quebram forte e parecem dizer que são elas as donas daquele oceano.

Um, dois, três… calculo mal e no quarto passo me desequilibro. Caio levada por uma onda malvada, que me sacode e me faz dar cambalhotas. Ralo a pele no fundo, na areia cravada de conchas. Tento pegar fôlego e outra onda me arrasta novamente para baixo. Luto e tomo mais dois caldos daqueles. Desisto e espero que o mar me cuspa pra fora. Nada mais posso fazer, deixo aquele balanço me descabelar. Sinto meu biquíni ser puxado. Talvez Iemanjá tenha se encantado com a estampa.

Finalmente abro os olhos, respiro e vejo uma multidão à minha volta. Não sei há quanto tempo estou ali atirada na areia. Levanto atordoada e um camelô vem me oferecer ajuda. “Olá, meu nome é Clodoaldo. Gostaria de ver biquínis, madame?”. Envergonhada, noto que perdi uma parte do meu.

Solidário? Que nada. Clodoaldo estava parado ali feito urubu, “tirando onda” com a minha cara. Oportunista, e voluntariamente causando tumulto em benefício próprio – um verdadeiro contraventor em seu momento oportuno de ação. Enfurecida, trato de me recompor, e sem emitir uma palavra procuro uma rota de fuga. Enquanto vou andando, meio desengonçada pelo tombo, penso na hipocrisia do homem, e que nem um belo dia de praia nos afasta de gente indesejada.

© Crônica coletiva com a participação de Patrícia Gabborin, Renata Mendes, Marise Louvison, Veruska Zanetti