Tinha tudo para ser um dia diferente. E foi. O condutor do táxi não sabia me informar, mas o rádio do carro ligado, a não sei quantos decibéis, não deixava dúvida. Acabara de ocorrer um desastre em Santos, cidade litorânea do estado de São Paulo. Ainda havia desencontro nas notícias, entretanto tudo levava a crer que se tratava de um helicóptero rompendo os telhados das casas localizadas num tal canal 3. Quando desci do táxi, uma garoa fina confundiu as lentes de meus óculos. Participava de um grupo em que oito pessoas se reúnem para falar o que quiserem, desde a mais tola vontade de comer torresmo de porco até a descrição do lado B das almas perdidas em busca de um ser único. Alguém fez um testemunho sobre a sua ressignificação.

Mas naquele dia o grupo estava em alvoroço. Ali também sabiam do acidente de avião ocorrido em Santos e de todas as especulações a respeito. Diziam que um incêndio estava tomando conta de algumas casas e não sabiam o número de vítimas. Pelo menos três pessoas do grupo estavam conectadas em portais de notícias por meio do celular, em busca de informações. Uma das mulheres rezava e dizia: “Eu tenho muito medo de andar de avião. Viajei pela primeira vez o ano passado, fui visitar minha filha no Rio de Janeiro, para onde se mudou. Foi aterrorizante!”. Cada pessoa que ali estava também tinha uma lembrança de um voo, de uma turbulência. Foi a hora também de lembrar o avião que tinha desaparecido lá pelas bandas do Oriente. Nada, nenhuma pista. Desaparecido como se tivesse entrado no Triângulo das Bermudas.

Tirei o casaco e me acomodei para entrar na conversa. Foi quando a coordenadora do grupo interrompeu as especulações sobre a notícia, retomando o foco no testemunho sobre ressignificação. Trouxe à tona a reflexão sobre a dificuldade das pessoas de revisar o significado das coisas, e assim transformar a visão de acontecimentos em suas vidas, sempre em busca da desejada felicidade. Mas a discussão novamente não engatou. Foi interrompida com a entrada da copeira pernambucana, que a essa hora traz sempre o café com quitutes para adoçar o encontro. Ela estava particularmente triste e queixosa – “Seu Eduardo acaba de morrer num acidente em Santos!” – disse a todos. A notícia ouvida no rádio do táxi, e especulada pelo grupo, foi confirmada. Tratava-se de um acidente aéreo que ocasionara a morte do presidenciável. Novamente o tema invade o ambiente numa fervorosa discussão, ampliando a reflexão.

Agora me pergunto: “Como é possível enxergar o mundo de uma maneira melhor quando o céu parece estar caindo e as pessoas se machucando? Tem como este mundo ser melhor? Veja só o que aconteceu com o pobre Eduardo – que de pobre não tinha muito, imagino”. E admito minha fraqueza, o medo que se instalou em mim naquele instante. Medo de o céu cair sobre a minha cabeça. Medo de que seja o meu nome na lista dos mortos de um trágico acidente de avião. Medo do incerto.

Muitas vezes ouvi dizer que não saber o que lhe acontece é pior do que a morte. E tentando manter em mente a proposta de ressignificação, comecei a pensar no porquê disso, deixando de lado o furor sobre a morte do político. Será que devíamos ter medo do incerto? O inevitável me é mais assustador do que tudo, se me perguntarem. Perderemos os dentes, ficaremos carecas, não conseguiremos mais andar e alguns de nós podem até precisar de fraldas no futuro. Certo e incerto misturados na beleza aterrorizante da vida.

O fato é que a coordenadora tinha razão. Estávamos ocupados demais focando no lado negativo das coisas para enxergarmos o positivo. Minha mãe sempre dizia: “A única certeza nessa vida é que vamos todos morrer”. Parece que as pessoas não aceitam isso. Como se o possível futuro presidente tivesse tido a escolha de não subir naquele avião. Ele não sabia. Nunca sabemos. Simplesmente esperamos, torcemos, rezamos para que nada de ruim nos aconteça.

Tinha tudo para ser um dia diferente e foi. Ressignificação, vida e morte, e um Brasil aturdido com o seu destino.

© Crônica coletiva com a participação de Marise Louvison, Chris Santos, Patrícia Gabborin, João Santos