Há alguns anos, quando estava preparando a mudança de uma casa para um apartamento constatei que conviveria com menos espaço. Como solução decidi que coisas sem uso ou nunca tocadas ou vistas há mais de um ano, encontrariam o caminho direto para a lixeira. Tamanho desgaste, físico e emocional, que uma mudança exige parece ter sido suavizado com o reduzido número de objetos a serem acomodados. Tudo que carreguei comigo era essencial, dando início a uma nova maneira de viver a vida.

Sair de uma casa grande para um espaço menor, além de desapego, exigia alguma criatividade. E lá fui eu diminuindo as dimensões da mobília, dos eletrodomésticos e dos vasos que receberiam as plantas salvas do antigo jardim. Alguns aprendizados foram imprescindíveis, como depender de um elevador, entender que um portão só abre depois que o outro fecha, reconhecer a campainha do interfone, por o crachá no carro, usufruir dos benefícios do controle remoto para acionar as engrenagens da garagem, usar uma carteirinha para ter direito à piscina e  aos exercícios na miniacademia, ter uma chave esquisita para liberar o carrinho de compras e conviver com o Seu Antônio, o porteiro, que conhecia a fundo todos os inquilinos e proprietários.

Ele se achava um terapeuta no desvendar das almas. Havia chegado a São Paulo nos idos de 80 amassado num pau-de-arara. A família era de Gilbués, lá no Piauí, e gostava de ressaltar que sua cidade fazia divisa com o Maranhão e integrava o Alto Médio Gurguéia. Apesar do orgulho, seus interlocutores, na ignorância da geografia nordestina, reagiam com cara de paisagem. “Muito bom, Seu Antônio, muito bom”.   Eram mais de 15 anos no Edifício Solar dos Pássaros. Muita autoridade e poder naquele uniforme e no casaco azul marinho comprido para noites de frio.

No dia da mudança, ele acompanhava o balé dos carregadores sem perder os detalhes para entender desde logo qual era o meu estilo. Ficou perplexo e quase indignado quando Mathilda foi retirada do caminhão da transportadora, e repetia a cada momento “Vige Santíssima”, enquanto procurava entender como uma criatura daquele tamanho ia ser colocada em um apartamento de apenas alguns metros quadrados.

Minha atitude para o novo só havia encontrado um obstáculo: a falta de vontade de viver longe dela. Assim ela logo foi incluída na lista de coisas indispensáveis. Deixar uma história para trás foi um grande exercício de desapego, mas ainda não estava pronta para viver sem Mathilda.

O espanto do porteiro me fez lembrar como ela tinha entrado na minha vida. Como um filme, relembrei daquela viagem à Austrália, onde pela primeira vez eu havia deixado o vento dos acontecimentos me levar conforme sua vontade. Foi numa dessas “rajadas” que conheci um ser incrível, de nome Bob, biólogo de meia-idade, pele queimada de sol que tinha passado a última década pesquisando peixes baiacu. Sua paixão por esses peixes era tamanha que fui contagiada. Me apaixonei pelos baiacus!

A principal característica desses peixes, como Bob me explicou, é um eficiente sistema de defesa, que os faz inchar e mudar de aparência para se defender, além de expelir um veneno mortal. O encanto do biólogo não foi muito além da pele bronzeada. Ele era parecido demais com seus baiacus. Assim, o que sobrou da viagem foi Mathilda, uma coala de pelúcia cor-de-rosa gigantesca que comprei numa loja do aeroporto para me lembrar para sempre daquele país tão surpreendente, mas que teve de viajar junto com as bagagens por causa de seu tamanho nada convencional, deixando-me amargurada sem seu abraço aconchegante.

Hoje, enquanto cuido do meu quase jardim, o pensamento viaja e percebo que há um elo entre toda essa mudança, de casa, de estilo e de vida: Mathilda. Ela veio fazer parte do meu mundo por acaso, mas sua permanência representa um saudável desafio à escolha de viver apenas com o que faz sentido neste pequeno espaço que criei para mim, a despeito do olhar crítico do Seu Antônio.

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