Pulp fiction na tarde paulistana

© Crônica coletiva com a participação de Marise H. Louvison, Luiz Geraldo Benetton e Denise Faria

As luzes foram acesas, mas Ana Beatriz ainda se sentia dentro do filme. Produção francesa é assim mesmo, sempre nos deixa no meio do caminho: ficar sentada e pensar a respeito, ou correr para olhar o mundo e ver se tudo ainda permanece no mesmo lugar. Enquanto pensava, ia arrumando todas as tranqueiras que havia espalhado nas poltronas vazias ao lado da sua. Saquinho de pipoca, livro da Hilda Hilst, copo de Coca-Cola, programação do Belas Artes, a garrafinha prateada com seu uísque preferido. Esperou os créditos passarem na tentativa de ler alguma coisa surpreendente e ficou impregnada com a música que soava ainda forte no espaço. Levantou-se. Olhou para os lados. Frequência reduzida naquela quarta-feira seca de inverno. Estava aposentada, era uma pessoa livre, podia se dar ao luxo de uma sessão de cinema às duas, sem contar que pagava meia entrada. Privilégio para poucos.

Na saída, a dúvida de sempre. Tomar um café ou ir embora para não pegar o metrô lotado? Passou os olhos rapidamente nas pessoas sentadas no bistrô e viu alguns jovens ruidosos, um outsider desamparado folheando um livro, e nada mais. Optou por ir antes ao banheiro.

Enquanto lavava as mãos, sentiu a presença de uma outra pessoa. Não havia visto ninguém até então. Não a viu entrar. Fez um gesto para sair, enxugando-se na própria calça, quando percebeu o choro dolorido da desconhecida. Ana era tímida, não gostava de falar com estranhos, mas sentiu aquele apelo da civilidade e, um pouco encabulada, arriscou a pergunta:

– Posso fazer alguma coisa por você?

Não era a primeira vez que caia nessa tentação samaritana de se envolver. Se o elevador falasse… E dessa vez não ia mesmo conseguir se conter. Choro contagia, desperta sua dor também.

Repetiu a pergunta, agora em um tom de voz mais suave e baixo. Havia se aproximado o suficiente para perceber que um lenço encobria meia face da desconhecida. Ela se virou para Ana, e uma onda enregelante a paralisou. Nunca vira olhos tão vermelhos assim.

Na hora lembrou-se do filme “Convenção das Bruxas” e das pupilas vermelhas faiscantes. E não era só isso. O olhar sanguinolento da outra parecia dizer: “que te interessa?”.

Uma onda a percorreu da espinha à barriga, e continuou até atingir a bexiga. Mas já tinha começado o diálogo, então procurou controlar suas reações. Fez menção de afastar-se, tentando não demonstrar muito o medo crescente que sentia. Ao desculpar-se e virar o corpo para ir embora (precisava achar outro banheiro, urgente), sentiu em seu braço unhas longas e firmes, e ouviu a voz rouca da mulher:

– Espere.

Esperar o que, pensou Ana? Imediatamente lhe veio o lugar comum “esperar pelo pior”. Mas o que seria pior do que estar ali naquele banheiro com uma figura assustadora a impedir sua passagem para um outro espaço redentor? E procurou reagir ao medo do que aquela estranha tinha a dizer. Torceu para que o choro terminasse e a rouquidão da voz se dissipasse. Estava errada.

– Esta cidade não é muito acolhedora, mas você me surpreendeu com sua pergunta. Ninguém se importa, não é mesmo? A aparência, a idade, o vigor é tudo o que valorizam. Mas você me entende…

Ana estava disposta a concordar com ela. Mais do que disposta até, concordaria com tudo que a mulher dissesse, desde que pudesse abrir a porta. Mas o fato é que estava certo o que dizia, a cidade não era mesmo hospitaleira com todos, e por isso fazia questão de usar o maior número de vezes o transporte público gratuito, sentar-se no banco reservado no metrô, ir a todos os lugares em que a idade lhe permitia entrar sem pagar. Considerava o mínimo de retorno que merecia depois de contribuir anos para o crescimento daquela metrópole, agora desgovernada. Arriscou um comentário, mas foi interrompida.

– O meu choro não é de dor, não se preocupe. Só estou com muita raiva, e quando chego nesse ponto não consigo segurar as lágrimas. Se evito demais, meus olhos vão ficando vermelhos até o ponto de quase me cegar, e então preciso dar um tempo, recuperar a calma, de preferência longe dos outros.

– Mas o que a deixou com tanta raiva, afinal? – quis saber Ana, sem pensar que a cada pergunta uma resposta viria, prolongando aquele encontro.

Ouve a exótica criatura declamar, as palavras rompendo o lenço que cobria sua boca:

“A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.”*

Ana virou-se para abrir a bolsa sobre a pia e retirar de lá seu exemplar de Hilda Hilst, cujas palavras reconhecera de imediato, para mostrar à desconhecida de olhos vermelhos que sabia de sua angústia: “A vida é crua”, ela concordava. Mas quando levantou os olhos a outra já não estava mais à porta.


Trecho do poema “Alcoólicas” (http://www.releituras.com/hildahilst_alcoolicas.asp).

Millôr Fernandes, eu e o poliedro

© Crônica coletiva com a participação de Marise H. Louvison e Luiz Geraldo Benetton

Millôr Fernandes era um poliedro. Como assim? Poliedro sou eu. Vendi livros do Padre Charbonneau junto com a Enciclopédia Britânica, quando jovem. Cansei e vendi as primeiras cadernetas quando resolveram massificar a poupança no Brasil, aquelas da formiguinha. Estava nas ruas vendendo os primeiros seguros saúde que surgiram. Ia de hospital em hospital tentando convencer os diretores que o credenciamento era o ó do borogodó. Vesti farda, fui oficial do exército. Até programa infantil para rádio eu fiz. Representei o Brasil em reuniões da ONU. Ensinei muita gente a dizer franchising. Fiz consultorias para o Mercosul e iniciei o marketing esportivo. Já chorei ouvindo discurso da Erundina em um caminhão de som. Presidi estatais. Trabalhei com cálculos na Light, contava postes abalroados, cruzetas e metros de fios. Contava as lâmpadas também. Claro. Falo francês, espanhol e inglês. Também contei parafusos em uma fábrica de tratores. Fui comunista, anarquista e entrei para a turma dos reacionários. Já cantei Lula Lá e Fora Dilma. Comprei livros, bibliotecas inteiras. Ensinei e aprendi. Lancei livros, fui capa de revista e hoje eu sou do lar.

De tudo, tudo, ficou um mar denso de lembranças, sentimentos contraditórios (só os idiotas não se contradizem, com o tempo), frustrações não esquecidas, e sim, por favor, um gostinho de realização por ter trilhado novidades e velhidades com a mesma energia de um bandeirante urbano, aquela figura bem-intencionada que não vislumbra as consequências históricas de seus atos. Mas quem sabe antes?

Abri caminhos desconhecidos e atravessei matagais adversos e peçonhentos, sangrei, cicatrizei e venci. Hoje meu mundo é meu lar, minha riqueza interior, o conjunto das vivências introjetadas e batizadas com um intuito de sentido. Eu sou a soma improvável de todas as minhas faces. Quanta complexidade para atingir o simples. Mas só podia ser assim. Oh, multifacetada vida!

Do outro lado da linha

© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Marise H. Louvison e Patrícia Marcela Gabborin

Nem sei há quanto tempo o telefone está tocando. Levanto da poltrona cambaleando e procuro apoio.

– Alô…

– Oi, vó, o que tá acontecendo? – Ouço uma voz de criança do outro lado.

A pergunta me pega de surpresa. O que estaria acontecendo? E onde? Sobre o que aquela menininha estaria falando, se eu não tenho nenhuma neta? Dou trela à conversa.

– Olá, minha pequena, acordada até agora?

– Estou preocupada com você. Não consigo dormir. Já contei todos os carneirinhos, como me ensinou.

– Que linda, quanto carinho!

– Sabe, vó, aqui em casa falam tudo pela metade…

– Eu sei como é.

– Eu não entendi direito, então não consigo dormir.

– Você sabe que é importante dormir na hora certa. Amanhã cedo tem escola. Fez as lições?

– Fiz, vó, mas eu quero saber como você está. Mamãe estava chorando e toda hora repetia seu nome. Papai andava de um lado pra outro e ficava chamando o Tio Sérgio sem parar. Nem pude assistir meu seriado favorito no celular dele. Vozinha…

– Diga, amada!

– Eu amo muito você… tô com saudade. A minha amiga, a Aninha, me disse assim: “Julia, você nunca mais vai ver sua vozinha e nem comer os bolinhos que ela faz”. Fiquei com muita raiva e puxei o cabelo dela, vó… e aí…

– Dona Brancaaa, dona Brancaaa… Com quem a senhora está ao telefone?

– Olha só, minha menina, agora vou ter que desligar, está bem? Chegou a… Ah, deixa pra lá! Venha me visitar, tá?

– Ô dona Branca, já disse várias vezes pra senhora não atender o telefone na minha ausência! Quem era? Com quem a senhora tava falando?

– Ai, Luzia, não me amole! Tô cansada dessa sua chatice. Não posso fazer nada sozinha, oras!

– E veja só isso, novamente a senhora nem tomou o seu chá com bolachinhas, Dona Branca.

Na mesinha ao lado da poltrona encontro o chá está gelado ao lado do pratinho com o lanche da noite. E no chão, cacos de vidro espalhados bem ao lado da bengala.

–  …e olhe só que dó, o retrato da sua família se quebrou todo no chão. Mas o que aconteceu?

– Eu não sei de que família você está falando, Luzia. Pare de me azucrinar, hein! Eu estava aqui sentada tão somente, daí me levantei porque… ah, nem sei, e o bastão… o bastão… Ai, você me cansa… o corpo até chega a doer. Chega de perguntas! E vê se traz o meu chá, que sempre esquece.

Escuto o outro em mim

© Crônica coletiva com a participação de Renata Mendes, Denise Faria, Luiz Geraldo Benetton, Marise H. Louvison e Veruska Zanetti

A dor do outro dói em mim.

Ouvir não é uma opção, pois uma vez que o ouvido funcione, ele ouve. É o barulho dos carros passando na Marginal, o avião às seis da manhã anunciando que o aeroporto de Congonhas está aberto, os pássaros piando em busca das frutas das árvores no parque perto daqui. Som, música, barulho, melodia…

Ouvir é entender que não se está sozinho. Mesmo quando o som chega em uma linguagem que não se entende. O que me impressiona é que acabo compreendendo o que antes achava não entender.

A essa compreensão que parece vir do coração damos o nome de empatia, uma relação com o outro em que não são necessárias palavras ditas ou experiências vividas, basta saber ouvir sobre sua dor.

Estar presente, sintonizado, atento já provoca um turbilhão de trocas emocionais, todas as células se envolvendo e agradecendo essa aproximação, essa partilha. A grande questão é: como ouvir e não se envolver? Como conseguir extrair algo dessa oportuna dor sem se sentir insensível?

Estar já é complicado. Ser e estar só é diferente em português e em algumas outras línguas. O outro sou eu ou está eu? Aparecem, assim, o ouvir e o escutar em um intricado carrossel de sentimentos. Olhar e ver andam juntos? Falar e dizer são irmãos?

Não há dúvida: a dor do outro foi em mim. E dói em mim porque não estou sozinho, mas conectado com tudo, e sou conectado com meus sentimentos. A dor do outro dói em mim porque em seu olhar vejo meus fantasmas. A dor do outro foi em mim porque quando quero dizer que tudo vai dar certo, no fundo gostaria de admitir que muitas dúvidas também me perseguem.

Oração ao Tempo

© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Marise H. Louvison, Luiz Geraldo Benetton, Renata Mendes e Veruska Zanetti

Quando aqueles que admiramos e amamos se vão, levam junto um pouco do que somos, como foi quando perdi meu pai. O Tempo passa e assistimos a nossos ídolos e mentores, seres iluminados, partirem levando sua energia, um jeito de ser, um talento.

Aguardo com tranquilidade o microssegundo de sair do círculo da vida e já me imagino encontrando essas energias vibrando no espaço incógnito. Reconhecerei? Reconhecerão?

Vou pedir ao Tempo que me permita pelo menos um abraço, e que eu possa lhes dizer que segui os mestres para mais uma vez ser banhada pela luz da beleza e da sabedoria. E que ele seja justo e benévolo, não importando a duração, mas a intensidade da visão, do contato, da saudade. Como se nunca tivesse havido partida.

Tempo, tempo, tempo, nossos destinos em tuas mãos, dai-nos o instante mágico do reencontro, do colo macio, da palavra serena, do olhar acolhedor.

Ilumine nossas vidas para que teus fluidos incessantes sejam inspiradores. Que cada momento vivido, por ti sustentado, seja o bastante, pleno, sem lapsos e remorsos. Ensina-nos a manter a chama viva intacta.

Sendo o senhor da vida, Tempo, eu te peço, além da sabedoria, a visão do futuro no passado, para poder desfrutar como ídolo daquele que achava ser somente meu pai. Hoje sei que não é ele a controlar o destino.

Tempo, tempo, tempo, por conduzires meu destino, guia manso meu caminho. Que haja tempo nesse Tempo para durar o que precise.

Este texto é uma reflexão inspirada em música de Caetano Veloso, de 1979, em que o compositor faz uma homenagem ao orixá Iroko (ou Rôco), cultuado no candomblé do Brasil pela nação Ketu. Iroko é uma árvore que representa a longevidade, a durabilidade das coisas e o passar do tempo. Na mitologia, Iroko foi a primeira árvore plantada e pela qual todos os outros orixás desceram à Terra.

Oração ao Tempo faz parte de um conjunto de 12 crônicas escritas coletivamente, sendo seis a partir de canções de Cazuza e seis a partir de canções de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses. Uma delas está aqui, a outra aqui, e mais outra aqui.

Domingos de nutella

© Crônica coletiva com a participação de Veruska Zanetti, Marise H. Louvison, Renata Mendes, Denise Faria e Luiz Geraldo Benetton

E se todos os dias fossem domingos ensolarados e não houvesse na semana mais nenhum dia útil? Imagino como seriam os meus, livres de rotina.

Começo com um café da manhã com panquecas cheias de nutella, bolo de chocolate quentinho com nutella, frutas com nutella. Como o pote todo. Afinal, domingo é o dia liberado da dieta. Saio para caminhar na beira da praia, calmamente, e sento para tomar água de coco e ver o tempo passar sem me preocupar com o hora.

Pego um livro daqueles não muito elaborados para me fazer companhia entre um mergulho e outro. Com a brisa e o barulho das folhas, o dia passa bem devagar.

Na volta entro na sorveteria e peco pedindo para encher de nutella o copinho. Discuto porque para mim a camada do creme está transparente e eu quero mais, mesmo que não venha acompanhado por bolas de sorvete. Quero mesmo é o canudo lotado de nutella, já que afinal a partir de agora todos os dias são domingos ensolarados.

Mas, e os sábados à noite? Quando saio com meus amigos, danço aquela música que me tira do ar, vejo pessoas diferentes e sinto a vida transpirando por todos os poros? Ok! Todos os dias serão sábado e domingo, resolvido!

Nesse ritmo vou perdendo a compostura, a silhueta, e começo a ter saudade das segundas, dia mais do que adequado para se comprometer com qualquer coisa: regime, retornar mensagens, arrumar o armário… e torcer pela chegada da sexta, que antecede o sábado das baladas e o domingo lambuzado de nutella.

Resisto firme e a saudade passa loguinho. Lá vou eu no meu devaneio almoçar até me empanturrar de frutos do mar, depois da sobremesa, claro. Já experimentou camarão caramelizado com nutella?

Bem, tudo pode quando a vida é sempre um domingo interminável e você tem todo o tempo do mundo para fazer a digestão. Não me acordem.

Quem nunca?

© Crônica coletiva com a participação de Veruska Zanetti, Marise H. Louvison, Renata Mendes, Luiz Geraldo Benetton e Denise Faria

Tantas histórias de um grande amor perdido. Quem nunca teve? Daqueles que a gente investe, renuncia, se entrega, faz planos, desfaz, refaz. Daqueles que a gente espera uma vida pra ter e passa mais outra tentando entender o que deu errado.

O amor na prática é sempre ao contrário. Sonhos, promessas, sacrifícios por um grande propósito. Quem nunca fez?

A vida é cruel mesmo. Caminhamos e erramos. Erramos e paramos. Voltamos e indagamos. Ciclo viciante ou círculo em vício? Temos a resposta ou não sabemos a pergunta? Por que choramos? Ou, por quem choramos?

A vida é bela também, e choramos por quem queríamos ser antes que tudo acabe. Essa vida, tão desprevenida e exata, deixa claro que tudo um dia acaba. Até os grandes amores que nem sequer começaram.

Pra que buscar o paraíso, jardim perdido, terra seca e cada vez mais longe? Pra que sonhar se ao acordar é o nada e tudo acaba? 
Cansei de ser otário.

Para esse tipo de amor supervalorizado, que faz promessas de tirar o chão e durar para sempre, o antídoto (ou vacina, se ainda houver tempo): amar-se cada dia mais.

Este texto foi inspirado na canção “Ritual”, lançada por Cazuza em 1987 no álbum “Só se for a dois”. Ela faz parte de um conjunto de 12 crônicas escritas coletivamente, sendo seis a partir de canções de Cazuza e seis a partir de canções de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses. Uma delas está aqui e a outra aqui.