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Crônicas Coletivas

Uma experiência de escrita

Cheiro de quê?

© Crônica coletiva com a participação de Veruska Zanetti, Renata Mendes e Luiz Geraldo Benetton

Descrever cheiros. Gosto disso. Posso até dizer que é uma mania. Acabo de ferver água para fazer um chá de gengibre com jasmim. Nada melhor em um far niente em plena quinta-feira. O cheirinho me lembra finais de semana no campo. Moletom, horta, viola, silêncio. Gosto deles. Sorrio. Cheiros que arrancam um sorriso da alma da gente. Saio na varanda com meu chá e sinto o perfume da lavanda que cultivo há tanto tempo, presente de uma amiga. Um sorriso pelas amizades.

SIGO pensando sobre os cheiros. Qual seria o cheiro do amor? Doce? Ácido o do medo? Amargo o da dor? Cheiros e sabores. Cheios de lembranças.

Cheiro de rosas me lembra a Índia: na saída do aeroporto de Delhi, o saguão repleto de incenso de rosas em celebração a um dos deuses mais famosos do país, Ganesha, um elefante simpático. Toda vez que sinto esse cheiro, me transporto para lá. Todas as cores dos sarees misturados com os cheiros dos temperos, da espiritualidade e da confusão de tantas pessoas. Cheiro de amor com curiosidade. Cheiro de caos e de conexão. Cheiro de yin e yang, cheiro de equilíbrio.

Cheiro de mar, salgado, fresco, úmido, liberdade, imensidão. Meus mergulhos no passado, aventuras, velas ao vento, saudosas tempestades. O mar tem cheiro de azul.

Café, aquela fumacinha brotando da xícara, pelando, pijama e chinelo, palavras ainda sem sentido, não dormi bem. Café é o perfume do lar. Menta é cinema em tarde livre, gazeta, aula cabulada, rir sem parar, correr feliz. A alegria exala menta.

Madeira é vinho maduro, taças cruzadas, brindes, sorrisos, esperanças, aroma que envolve e eleva, aproxima e seduz. O vinho é o cheiro do júbilo. Amêndoa desperta desejos íntimos, cumplicidades, laços entre braços, beijos e que mais. A sensualidade é amendoada.

Soninho, travesseiro, lençol, cama pronta ou rede com coberta, dormir tem cheiro de chocolate. BOA NOITE!

O avião, a lancheira da mamãe e o lixo da memória

© Crônica coletiva com a participação de Renata Mendes, Veruska Zanetti e Patrícia M. Gabborin

Tem gente que não gosta de viajar. Para mim, viagem tem a mesma importância que tomar banho, escovar os dentes e me formar na faculdade. Ou seja, me renova, me amplia, traz sentido à vida, acabo conhecendo mais daquilo que gosto e do que não gosto. E ainda abre espaço para eu mudar de opinião sobre esses mesmos gostos.

Um mal necessário é o avião. Tem fila para tudo, a comida é praticamente de plástico, o ar sempre é polar para competir com a temperatura externa e os banheiros após 20 minutos de voo ficam inutilizáveis. Admito que acho um pouco engraçado a dinâmica das pessoas para entrar e sair da aeronave. Empurram-se para entrar, colocam as cinco sacolas que compraram no Duty Free no compartimento de bagagem, e quando se sentam pegam imediatamente a revista para ver as novidades do mesmo Duty Free que deixaram minutos antes.

E a saída? Mais hilária que a entrada. Assim que o aparelho pousa, sons de cintos de segurança se soltando e a agonia no ar para sair daquela lata de sardinha o mais rápido possível. Logo em seguida vem a voz dos comissários de bordo pedindo para conterem a ansiedade de forma educada: “Senhoras e senhores, por favor, mantenham os cintos afivelados até que a aeronave pare completamente. Para a sua própria segurança”. Quando o avião para, as pessoas se acotovelam para chegar primeiro à porta.

Também era assim no colégio. Saíamos sempre correndo para fazer fila e ir ao recreio. De nada adiantava dar cotoveladas nos colegas, eu era sempre a última da fila, formada por ordem de altura. Detestava ser daquele tamanho. Girafa era o apelido mais carinhoso que eu tinha. E lembro da lancheira que minha mãe preparava cuidadosamente todas as manhãs: frutas, suco natural e um lanchinho. Hoje vejo que aprendi mais com minha mãe do que com os professores. Não sei nada sobre fórmulas de matemática, nunca decorei a tabela periódica nem regras gramaticais. Em contrapartida, não como alimentos industrializados, frituras ou refrigerantes. O que me faz achar ainda mais difícil encarar a comida de avião.

O fato é que em viagens aéreas nenhuma ciência funciona. Nem a matemática das chamadas por assentos na entrada. Nem a fórmula plástica do catering, que só provoca um flanar pelo meu estômago e me faz desejar a saudável lancheira da minha mãe. Por isso, toda vez que estou no avião, a minha memória afetiva me remete à infância, e a essa felicidade ingênua da época. Sim, tem gente que detesta viajar. Mas nessa hora eu procuro manter o meu ânimo e foco na viagem planejada. Chacoalho a cascavel num uísque on the rocks durante o voo e apago. E entrego para o lixo da memória a lista renovada daquilo que definitivamente não gosto.

Irmã para quê?

© Crônica coletiva com a participação de Marise H. Louvison, Patrícia M. Gabborin e Denise Faria

Inacreditável, foi a única palavra que consegui dizer quando ganhei um urso de pelúcia da minha irmã Juliana. Sei que muita gente ganha bichinhos bonitos, enfeitados, bem vestidos, até com cheiro. Fica feliz, coloca sobre a cama, na estante de livros. Mas eu tenho 64 anos, e com certeza vivi plenamente a infância.

Confesso que jamais pensei em retornar ao meu tempo de bonecas de pano, corda de pular ou minijogo de chá sobre a mesinha de fórmica. E olha que nem passei pelo desafinado piano com oito teclas. Trabalhei as possibilidades enquanto olhava para o urso. Doar para a primeira criança que encontrasse na rua, fazer uma rifa, ou mesmo jogar no lixo bem escondido para nenhum vizinho do andar ver. Mas gosto muito da Juliana, o que pesou na hora de decidir.

Pensando sobre nossa relação, tentei encaixar o presente inusitado. Sei que bichinhos de pelúcia carregam um componente de afeto muito forte, que podem transcender a experiência da infância, mas Juliana nunca foi uma irmã amorosa. Mais velha, sempre foi independente demais e muito focada em seus assuntos, raramente trocávamos confidências.

Na memória resgato o dia em que a vergonhei quando a diretora chamou porque eu tinha mordido o rosto de um garoto na sala de aula. E como era sempre ela quem me trazia do colégio, nesse dia foi só bronca na volta para casa. Pensando bem, tenho uma coleção de dias semelhantes que justificam nossa relação ter ficado estremecida. Mas era sempre ela quem estava por perto.

Ter consciência de tudo isso me deixou com raiva, porque não era um bom momento para analisar essa relação. O gostar, eu sei, ainda estava em seu devido lugar, irmã é irmã, mas admitir que sempre fomos muito diferentes em tantos sentidos, e que a distância foi cultivada por nós duas igualmente era mais difícil do que jogar sempre a culpa nela.

Então voltei a encarar o urso sentado em cima da mesa, já parecendo maior do que quando abrira o pacote entregue pelos Correios. Um grande incômodo que não ia desaparecer se eu ficasse apenas olhando para ele. Era preciso fazer a pergunta. E estar pronta para a resposta.

Com relutância peguei o telefone e liguei para Juliana.

– Tudo bem com você? Seu pacote chegou – disse logo que ela atendeu. Uma frase neutra, dita da forma mais neutra possível, na esperança de alguma explicação sem que eu tivesse que dar mais nenhum passo.

– Você gostou? – Ela perguntou com um ar meio sacana.

– É um lindo urso de pelúcia.

– Não é mesmo? Também achei.

Aquilo estava saindo do controle. Eu ia ter que perguntar, correndo o risco de parecer ingrata, ou fria, ou desinformada – podia ser um item muito popular e eu estar totalmente por fora.

– Tem certeza que era pra mim que você queria mandar?

– Sua filha esteve aqui. – Seu tão conhecido ar de censura fez parecer que eu tinha voltado no tempo. – Ela me disse que não se falam há meses. Isso não pode continuar assim, vocês precisam se entender.

– Nós nunca nos entendemos ­– eu retruquei. – Então não é agora que isso vai mudar. Eu fiz o que pude, mas parece que estou sempre errada. Até me lembra você e como ficava irritada com qualquer coisa que eu fazia.

Sem ligar para o ciúme que minha voz revelava ao saber do encontro entre as duas, e que aparecia toda vez que eu constatava a proximidade que mantinham, ela disse:

– Você vai ser avó. Precisa de brinquedos em casa para quando forem te visitar.

Juliana disse aquilo como se fosse uma ordem, como se eu não pudesse prover eu mesma alguma diversão para um neto que eu nem sabia que estava chegando. Pega de surpresa com a notícia, a raiva em um instante foi dando lugar a uma emoção nova, bem mais suave, embora inteiramente desconhecida.

E lá estava minha irmã, de novo por perto, quando eu ainda precisava dela.

Pulp fiction na tarde paulistana

© Crônica coletiva com a participação de Marise H. Louvison, Luiz Geraldo Benetton e Denise Faria

As luzes foram acesas, mas Ana Beatriz ainda se sentia dentro do filme. Produção francesa é assim mesmo, sempre nos deixa no meio do caminho: ficar sentada e pensar a respeito, ou correr para olhar o mundo e ver se tudo ainda permanece no mesmo lugar. Enquanto pensava, ia arrumando todas as tranqueiras que havia espalhado nas poltronas vazias ao lado da sua. Saquinho de pipoca, livro da Hilda Hilst, copo de Coca-Cola, programação do Belas Artes, a garrafinha prateada com seu uísque preferido. Esperou os créditos passarem na tentativa de ler alguma coisa surpreendente e ficou impregnada com a música que soava ainda forte no espaço. Levantou-se. Olhou para os lados. Frequência reduzida naquela quarta-feira seca de inverno. Estava aposentada, era uma pessoa livre, podia se dar ao luxo de uma sessão de cinema às duas, sem contar que pagava meia entrada. Privilégio para poucos.

Na saída, a dúvida de sempre. Tomar um café ou ir embora para não pegar o metrô lotado? Passou os olhos rapidamente nas pessoas sentadas no bistrô e viu alguns jovens ruidosos, um outsider desamparado folheando um livro, e nada mais. Optou por ir antes ao banheiro.

Enquanto lavava as mãos, sentiu a presença de uma outra pessoa. Não havia visto ninguém até então. Não a viu entrar. Fez um gesto para sair, enxugando-se na própria calça, quando percebeu o choro dolorido da desconhecida. Ana era tímida, não gostava de falar com estranhos, mas sentiu aquele apelo da civilidade e, um pouco encabulada, arriscou a pergunta:

– Posso fazer alguma coisa por você?

Não era a primeira vez que caia nessa tentação samaritana de se envolver. Se o elevador falasse… E dessa vez não ia mesmo conseguir se conter. Choro contagia, desperta sua dor também.

Repetiu a pergunta, agora em um tom de voz mais suave e baixo. Havia se aproximado o suficiente para perceber que um lenço encobria meia face da desconhecida. Ela se virou para Ana, e uma onda enregelante a paralisou. Nunca vira olhos tão vermelhos assim.

Na hora lembrou-se do filme “Convenção das Bruxas” e das pupilas vermelhas faiscantes. E não era só isso. O olhar sanguinolento da outra parecia dizer: “que te interessa?”.

Uma onda a percorreu da espinha à barriga, e continuou até atingir a bexiga. Mas já tinha começado o diálogo, então procurou controlar suas reações. Fez menção de afastar-se, tentando não demonstrar muito o medo crescente que sentia. Ao desculpar-se e virar o corpo para ir embora (precisava achar outro banheiro, urgente), sentiu em seu braço unhas longas e firmes, e ouviu a voz rouca da mulher:

– Espere.

Esperar o que, pensou Ana? Imediatamente lhe veio o lugar comum “esperar pelo pior”. Mas o que seria pior do que estar ali naquele banheiro com uma figura assustadora a impedir sua passagem para um outro espaço redentor? E procurou reagir ao medo do que aquela estranha tinha a dizer. Torceu para que o choro terminasse e a rouquidão da voz se dissipasse. Estava errada.

– Esta cidade não é muito acolhedora, mas você me surpreendeu com sua pergunta. Ninguém se importa, não é mesmo? A aparência, a idade, o vigor é tudo o que valorizam. Mas você me entende…

Ana estava disposta a concordar com ela. Mais do que disposta até, concordaria com tudo que a mulher dissesse, desde que pudesse abrir a porta. Mas o fato é que estava certo o que dizia, a cidade não era mesmo hospitaleira com todos, e por isso fazia questão de usar o maior número de vezes o transporte público gratuito, sentar-se no banco reservado no metrô, ir a todos os lugares em que a idade lhe permitia entrar sem pagar. Considerava o mínimo de retorno que merecia depois de contribuir anos para o crescimento daquela metrópole, agora desgovernada. Arriscou um comentário, mas foi interrompida.

– O meu choro não é de dor, não se preocupe. Só estou com muita raiva, e quando chego nesse ponto não consigo segurar as lágrimas. Se evito demais, meus olhos vão ficando vermelhos até o ponto de quase me cegar, e então preciso dar um tempo, recuperar a calma, de preferência longe dos outros.

– Mas o que a deixou com tanta raiva, afinal? – quis saber Ana, sem pensar que a cada pergunta uma resposta viria, prolongando aquele encontro.

Ouve a exótica criatura declamar, as palavras rompendo o lenço que cobria sua boca:

“A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.”*

Ana virou-se para abrir a bolsa sobre a pia e retirar de lá seu exemplar de Hilda Hilst, cujas palavras reconhecera de imediato, para mostrar à desconhecida de olhos vermelhos que sabia de sua angústia: “A vida é crua”, ela concordava. Mas quando levantou os olhos a outra já não estava mais à porta.


Trecho do poema “Alcoólicas” (http://www.releituras.com/hildahilst_alcoolicas.asp).

Millôr Fernandes, eu e o poliedro

© Crônica coletiva com a participação de Marise H. Louvison e Luiz Geraldo Benetton

Millôr Fernandes era um poliedro. Como assim? Poliedro sou eu. Vendi livros do Padre Charbonneau junto com a Enciclopédia Britânica, quando jovem. Cansei e vendi as primeiras cadernetas quando resolveram massificar a poupança no Brasil, aquelas da formiguinha. Estava nas ruas vendendo os primeiros seguros saúde que surgiram. Ia de hospital em hospital tentando convencer os diretores que o credenciamento era o ó do borogodó. Vesti farda, fui oficial do exército. Até programa infantil para rádio eu fiz. Representei o Brasil em reuniões da ONU. Ensinei muita gente a dizer franchising. Fiz consultorias para o Mercosul e iniciei o marketing esportivo. Já chorei ouvindo discurso da Erundina em um caminhão de som. Presidi estatais. Trabalhei com cálculos na Light, contava postes abalroados, cruzetas e metros de fios. Contava as lâmpadas também. Claro. Falo francês, espanhol e inglês. Também contei parafusos em uma fábrica de tratores. Fui comunista, anarquista e entrei para a turma dos reacionários. Já cantei Lula Lá e Fora Dilma. Comprei livros, bibliotecas inteiras. Ensinei e aprendi. Lancei livros, fui capa de revista e hoje eu sou do lar.

De tudo, tudo, ficou um mar denso de lembranças, sentimentos contraditórios (só os idiotas não se contradizem, com o tempo), frustrações não esquecidas, e sim, por favor, um gostinho de realização por ter trilhado novidades e velhidades com a mesma energia de um bandeirante urbano, aquela figura bem-intencionada que não vislumbra as consequências históricas de seus atos. Mas quem sabe antes?

Abri caminhos desconhecidos e atravessei matagais adversos e peçonhentos, sangrei, cicatrizei e venci. Hoje meu mundo é meu lar, minha riqueza interior, o conjunto das vivências introjetadas e batizadas com um intuito de sentido. Eu sou a soma improvável de todas as minhas faces. Quanta complexidade para atingir o simples. Mas só podia ser assim. Oh, multifacetada vida!

Do outro lado da linha

© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Marise H. Louvison e Patrícia Marcela Gabborin

Nem sei há quanto tempo o telefone está tocando. Levanto da poltrona cambaleando e procuro apoio.

– Alô…

– Oi, vó, o que tá acontecendo? – Ouço uma voz de criança do outro lado.

A pergunta me pega de surpresa. O que estaria acontecendo? E onde? Sobre o que aquela menininha estaria falando, se eu não tenho nenhuma neta? Dou trela à conversa.

– Olá, minha pequena, acordada até agora?

– Estou preocupada com você. Não consigo dormir. Já contei todos os carneirinhos, como me ensinou.

– Que linda, quanto carinho!

– Sabe, vó, aqui em casa falam tudo pela metade…

– Eu sei como é.

– Eu não entendi direito, então não consigo dormir.

– Você sabe que é importante dormir na hora certa. Amanhã cedo tem escola. Fez as lições?

– Fiz, vó, mas eu quero saber como você está. Mamãe estava chorando e toda hora repetia seu nome. Papai andava de um lado pra outro e ficava chamando o Tio Sérgio sem parar. Nem pude assistir meu seriado favorito no celular dele. Vozinha…

– Diga, amada!

– Eu amo muito você… tô com saudade. A minha amiga, a Aninha, me disse assim: “Julia, você nunca mais vai ver sua vozinha e nem comer os bolinhos que ela faz”. Fiquei com muita raiva e puxei o cabelo dela, vó… e aí…

– Dona Brancaaa, dona Brancaaa… Com quem a senhora está ao telefone?

– Olha só, minha menina, agora vou ter que desligar, está bem? Chegou a… Ah, deixa pra lá! Venha me visitar, tá?

– Ô dona Branca, já disse várias vezes pra senhora não atender o telefone na minha ausência! Quem era? Com quem a senhora tava falando?

– Ai, Luzia, não me amole! Tô cansada dessa sua chatice. Não posso fazer nada sozinha, oras!

– E veja só isso, novamente a senhora nem tomou o seu chá com bolachinhas, Dona Branca.

Na mesinha ao lado da poltrona encontro o chá está gelado ao lado do pratinho com o lanche da noite. E no chão, cacos de vidro espalhados bem ao lado da bengala.

–  …e olhe só que dó, o retrato da sua família se quebrou todo no chão. Mas o que aconteceu?

– Eu não sei de que família você está falando, Luzia. Pare de me azucrinar, hein! Eu estava aqui sentada tão somente, daí me levantei porque… ah, nem sei, e o bastão… o bastão… Ai, você me cansa… o corpo até chega a doer. Chega de perguntas! E vê se traz o meu chá, que sempre esquece.

Escuto o outro em mim

© Crônica coletiva com a participação de Renata Mendes, Denise Faria, Luiz Geraldo Benetton, Marise H. Louvison e Veruska Zanetti

A dor do outro dói em mim.

Ouvir não é uma opção, pois uma vez que o ouvido funcione, ele ouve. É o barulho dos carros passando na Marginal, o avião às seis da manhã anunciando que o aeroporto de Congonhas está aberto, os pássaros piando em busca das frutas das árvores no parque perto daqui. Som, música, barulho, melodia…

Ouvir é entender que não se está sozinho. Mesmo quando o som chega em uma linguagem que não se entende. O que me impressiona é que acabo compreendendo o que antes achava não entender.

A essa compreensão que parece vir do coração damos o nome de empatia, uma relação com o outro em que não são necessárias palavras ditas ou experiências vividas, basta saber ouvir sobre sua dor.

Estar presente, sintonizado, atento já provoca um turbilhão de trocas emocionais, todas as células se envolvendo e agradecendo essa aproximação, essa partilha. A grande questão é: como ouvir e não se envolver? Como conseguir extrair algo dessa oportuna dor sem se sentir insensível?

Estar já é complicado. Ser e estar só é diferente em português e em algumas outras línguas. O outro sou eu ou está eu? Aparecem, assim, o ouvir e o escutar em um intricado carrossel de sentimentos. Olhar e ver andam juntos? Falar e dizer são irmãos?

Não há dúvida: a dor do outro foi em mim. E dói em mim porque não estou sozinho, mas conectado com tudo, e sou conectado com meus sentimentos. A dor do outro dói em mim porque em seu olhar vejo meus fantasmas. A dor do outro foi em mim porque quando quero dizer que tudo vai dar certo, no fundo gostaria de admitir que muitas dúvidas também me perseguem.

Oração ao Tempo

© Crônica coletiva com a participação de Denise Faria, Marise H. Louvison, Luiz Geraldo Benetton, Renata Mendes e Veruska Zanetti

Quando aqueles que admiramos e amamos se vão, levam junto um pouco do que somos, como foi quando perdi meu pai. O Tempo passa e assistimos a nossos ídolos e mentores, seres iluminados, partirem levando sua energia, um jeito de ser, um talento.

Aguardo com tranquilidade o microssegundo de sair do círculo da vida e já me imagino encontrando essas energias vibrando no espaço incógnito. Reconhecerei? Reconhecerão?

Vou pedir ao Tempo que me permita pelo menos um abraço, e que eu possa lhes dizer que segui os mestres para mais uma vez ser banhada pela luz da beleza e da sabedoria. E que ele seja justo e benévolo, não importando a duração, mas a intensidade da visão, do contato, da saudade. Como se nunca tivesse havido partida.

Tempo, tempo, tempo, nossos destinos em tuas mãos, dai-nos o instante mágico do reencontro, do colo macio, da palavra serena, do olhar acolhedor.

Ilumine nossas vidas para que teus fluidos incessantes sejam inspiradores. Que cada momento vivido, por ti sustentado, seja o bastante, pleno, sem lapsos e remorsos. Ensina-nos a manter a chama viva intacta.

Sendo o senhor da vida, Tempo, eu te peço, além da sabedoria, a visão do futuro no passado, para poder desfrutar como ídolo daquele que achava ser somente meu pai. Hoje sei que não é ele a controlar o destino.

Tempo, tempo, tempo, por conduzires meu destino, guia manso meu caminho. Que haja tempo nesse Tempo para durar o que precise.

Este texto é uma reflexão inspirada em música de Caetano Veloso, de 1979, em que o compositor faz uma homenagem ao orixá Iroko (ou Rôco), cultuado no candomblé do Brasil pela nação Ketu. Iroko é uma árvore que representa a longevidade, a durabilidade das coisas e o passar do tempo. Na mitologia, Iroko foi a primeira árvore plantada e pela qual todos os outros orixás desceram à Terra.

Oração ao Tempo faz parte de um conjunto de 12 crônicas escritas coletivamente, sendo seis a partir de canções de Cazuza e seis a partir de canções de Caetano Veloso. Vamos publicá-las ao longo dos próximos meses. Uma delas está aqui, a outra aqui, e mais outra aqui.

Domingos de nutella

© Crônica coletiva com a participação de Veruska Zanetti, Marise H. Louvison, Renata Mendes, Denise Faria e Luiz Geraldo Benetton

E se todos os dias fossem domingos ensolarados e não houvesse na semana mais nenhum dia útil? Imagino como seriam os meus, livres de rotina.

Começo com um café da manhã com panquecas cheias de nutella, bolo de chocolate quentinho com nutella, frutas com nutella. Como o pote todo. Afinal, domingo é o dia liberado da dieta. Saio para caminhar na beira da praia, calmamente, e sento para tomar água de coco e ver o tempo passar sem me preocupar com o hora.

Pego um livro daqueles não muito elaborados para me fazer companhia entre um mergulho e outro. Com a brisa e o barulho das folhas, o dia passa bem devagar.

Na volta entro na sorveteria e peco pedindo para encher de nutella o copinho. Discuto porque para mim a camada do creme está transparente e eu quero mais, mesmo que não venha acompanhado por bolas de sorvete. Quero mesmo é o canudo lotado de nutella, já que afinal a partir de agora todos os dias são domingos ensolarados.

Mas, e os sábados à noite? Quando saio com meus amigos, danço aquela música que me tira do ar, vejo pessoas diferentes e sinto a vida transpirando por todos os poros? Ok! Todos os dias serão sábado e domingo, resolvido!

Nesse ritmo vou perdendo a compostura, a silhueta, e começo a ter saudade das segundas, dia mais do que adequado para se comprometer com qualquer coisa: regime, retornar mensagens, arrumar o armário… e torcer pela chegada da sexta, que antecede o sábado das baladas e o domingo lambuzado de nutella.

Resisto firme e a saudade passa loguinho. Lá vou eu no meu devaneio almoçar até me empanturrar de frutos do mar, depois da sobremesa, claro. Já experimentou camarão caramelizado com nutella?

Bem, tudo pode quando a vida é sempre um domingo interminável e você tem todo o tempo do mundo para fazer a digestão. Não me acordem.

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